segunda-feira, 20 de novembro de 2017

eu admito

Olha, eu admito que somos crianças inconsequentes e românticas e intensas. Mas será que sabemos o resultado do nosso próprio hedonismo? Porque, por mais que acabemos por nos conceder minutos seguidos da mais pura plenitude, construir mundos perigosos mas agradáveis e estimulantes, voltamos a ser vítimas do externo. Ou da crueza do ser de fato. Ou da mais dura veracidade.
Pois mesmo quando nos tornamos alegres, quando vemos o mundo voluntariamente desfigurado, não sabemos como construir alternativas usando nossos próprios instrumentos. E assim, seguimos constantemente direcionados a instrumentos mais fáceis. Pois sem eles não somos nada. E da falta nasce o desespero. E do desespero a pura vontade de ferver como bestas saciadas e de por fim, mergulhar para sempre em nossa própria efervescência.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Colo (um outro final possivel)

Foram-se as camélias
Voltaram-se os lilases
E agora é preciso navegar de novo.
Não é sólido, é fragil
Pois tudo o que é vivaz sente.
Não é fragil, suporta,
Não importa.
Pra mim nunca tá bom.

No meio da terra pisada
Nasceu uma florzinha azul
 
              1º de novembro de 2017, São Paulo

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Epílogo (prólogo)

Acorda e olha a luz azul pela janela
         do quarto ou do ônibus
A vida na pele
Cai o mito.
riverun por todas as margens da palavra
         o rio humano,
É preciso estar vivo para continuar a
         escrever a história.

Odisseu, tu que deita agora em minha
         frente, tu que a muito vislumbro
         sem a coragem de ver, que aparece
         sempre decaído, morto, cortado,
         teu cadáver finalmente aparece para
         mim nu, teu agigantado corpo
         mutilado pelo tempo, gigante de
         sangue e palavra, eu preciso
         comer a sua carne.

Então engoli tendão, músculo, verbo,
         sentimento e enigma.
Comi a sua carne Odisseu, e fui
         fecundado com a sua palavra,
Segue o mito.

(Finn again awake)

Vida na pele,
riverun por todas as margens do mundo
       o meu rio, apesar dos solavancos,
É preciso estar vivo para continuar a escrever a história


                                 
                           (Algum dia eu vou pegar a vida pelos braços
                                                            e coloca-la no meu livro)
       
       
     

domingo, 24 de setembro de 2017

Ruinas brancas

Pelos escombros se ouvia fogo e agua;
Vapor. Vermelho cobre. Lápis-lazúli.
Odisseu passava pela janela
Derrotado, com cortes fundos pelo corpo,
Olhos vazios;
Ventava.
Eu por minha vez me afogo.
Os dias tardam a passar.
Sombra e carne se misturam
E não se sabe mais o que é sombra
E o que é carne.
Goteja.
Conheci um sujeito certo dia que tinha
       Esmeralda nos olhos e não conseguia
                                              Tirar a roupa.
Choveu.
E deu medo de ficar velho no meio do mundo,
Pela janela a cidade se faz o oceano do meu
                                                 Naufrágio
   

                                     Setembro de 2017, São Paulo
           

quarta-feira, 30 de agosto de 2017




Sonhos de uma noite?

Bento Pestana









Quase que um baque, nenhuma espécie de droga do amor ou entorpecente químico, mesmo. Ismael, Daniel, Flavio, Isabel, Lora, Loreta...todos.
Depois daquele dia eu fiz questão de me afundar em um profundo e maçante dia a dia, que envolvia uma quantidade, em quilos, de tabaco e algumas geladas, ou biritas. Escolha você.
Lina e Lara beijaram Andrade que se sentiu o máximo e magoou Patroclo. Lembro como se fosse hoje que eles brigaram...Perdeu seu amor nos lábios de Andrade e pouco lhe importavam os beijos e amassos com Flora, que por sua vez declarava amor absurdo pelo garoto. É adolescência é uma fita.
Em algumas tentativas, em algumas tentativas, põe dedo pra lá no fundo, põe dedo pra cá, isso, isso, pronto agora da pra aumentar a velocidade, mas talvez o problema esteja na concepção, não! para de pensar, para de pensar, toca, toca...ah mas... ahhh... isso, isso, isso

perdeu meus braços e minhas pernas alguns anos atrás, perdeu as faces rosadas e as esmeraldas!! As esmeraldas... esmeraldas... vinte, 19, tal, tal....
Eram quatro amigos, algumas baganas, desesperanças, tavam meio desmoronados. Uma casa, comida, carne moída e tal... preciso tentar me explicar. queridos e queridas de toda a comunidade? não foram vós quem me escolhestes? Sim, era um menino e uma menina por volta dos dezessete. Ela tinha olhos meio caramelados e dourados e ele os olhos castanhos. Foi meio estranho aquilo, sabe? como explicar a química ou a poesia, no fundo no fundo, não se explica: tipo assim, assim, assado. Mas, enfim, eles se conheceram, acho que isso é uma boa explicação sabe? eles se conheceram através do cabeludo da escola ou do sinônimo feminino, "cabeluda"? Aquelas coisas né? Dividiram uma maçã um dia, alguma espécie de segredo, e se casaram sabe?

Barulho da janela
Quarto, você/contigo
olhando pra cá, pra lá...
colo, minha cabeça
aquela pele meio gelada,
ela quase dança parada
talvez não dure 23 anos ou menos ou mais...
esses 30 segundos foram suficientes pra pelo menos uma vez

Pátroclo acordou assutado.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Moedas azuis

E ai cara, como anda o cadáver que você
                 plantou no seu jardim inverno
                 passado? Floresceu?
Acho que vou
Chorar um rio de lagrimas
Para depois mijar em cima
Ou jogar moedas azuis contra
Uma parede vermelha para ver se as
Horas passam mais depressa...

Velado por tudo que há de
Crepuscular e úmido;
Embebido em uma névoa azul e
Uma claridade gasosa:

– Abaixo da noite
Amanheceu o mar –

O cinza das geleiras se pintou de rosa;

Lacrai os seios, donzelas,
Dilacerai as túnicas


                      Julho de 2017, MG

Urubus cor de rosa

Na avenida o ronco dos automóveis
Turvava as nuvens e
Gotejava
Podridão.
Então a angustia se calou, secreta
Lá no lago do peito onde emergiu
A noite inquieta que me possuiu
Senti o peso dos meus pés
Presos ao pó do meu pavor.
Que o diga o homem de açúcar
Que se esfarelou no teto.
Como esse triste vapor azulado
Que paira luminoso sobre nós,
A vida é só uma sombra móvel.

Os urubus sonham com auroras
                                          (Róseas)

   
                                     Julho de 2017, SP

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Frei Galvão

Queria que agua ainda refluísse pelas
            Minhas orelhas.
Se pudesse penduraria cidades coloridas
            Nas suas paredes, para elas brilharem
            Por horas efêmeras nas suas paredes
            Minhas cidades coloridas nas suas
            Paredes.
Zocchio pegou uma cerveja matinal.
Chegamos ontem a noite após horas de
            Ansiedade em um ônibus com direito
            A se umedecer de desolação e parar
            Para fumar um baseado no posto de
            Gasolina.
Com as horas a fumaça refluía pela casa
             De forma azulada.
Você voou para longe de forma azulada...
Os nervos se condensam no vácuo
Coagulando palavras.
Nuvens como pétalas no céu

Olhando as fotos todos nós parecíamos felizes.

Nenhum teto
Proteje o navegante ao mar entregue

.............................................................................

Os eventos se sucediam em uma névoa densa
Tentando em vão beber o liquido da luz.
Nenhum céu nunca me consola.
Acho que vou aos poucos deslizando para fora...
Escorrendo pelas cidades coloridas, elas se foram.
Passamos o entardecer em uma guerra de laranjas alucinada,
         Correndo pelo pomar e sorrindo; eu, Tom, Theo e Diogo
         Contra Zocchio, Bento e João Justo, malucos correndo
         Em uma guerra de laranjas alucinada.
Poderíamos simplesmente desistir de tudo e ir fazer uma eterna
          Guerra de laranjas alucinada na lua.
Arvores de metal diluindo o sol
Você realmente foi embora?
A casa gigantesca engolia nossos balbucios e nossa fumaça
Maluco esse banheiro colorido, eu poderia ficar aqui trancado enlouquecendo
            Ouvindo Lou Reed para sempre

.........................................................................

PASTO                   AZUL
VERDE                       SOL


CERCA                ESTRADA
NUVEM                      BOI

......................................................................

The blue sky above us
Te yellow house under the sun.
Love is gone
Dream is wrong
And no one have time for our ideosyncratic aesthetic ideals

...................................................................

Uma rosa suspensa
Sob dedilhados de violão
No quintal atras da cozinha.
Janelas verdes na casa colonial amarela.
O céu sem nuvens
Estupidamente azul de
Uma tristeza enlouquecida.
Esmalte vermelho
Recobrindo a superfície
Da nossa beleza.
Sonolento dia se transcorre
No interior paulista.
Esmalte vermelho escorre
Dos meus olhos de saudade:
Você
Uma rosa vermelha
Pintada de esmalte amarelo
Rodopiando através do céu.

Galinhas ciscam
Pelo pomar de laranjeiras

                                                   
                                     Jaú, junho de 2017

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Meus tristes submarinos

Nossa, que dentadas tão pragmáticas.
Por acaso se esqueceu do que tem
Dentro e é feito de carne?
Como se no oficio de cada dia
Tenha se esquecido daquilo que é tão intimo
E não se dobra aos dias.
Por acaso costuraram seringas nas suas lagrimas?
Por acaso seu sangue coagulou por detrás da
                      Sua mandíbula de cadeado?
Falar muito de si pode ser uma forma de se esconder
E eu sou e me tornei
A hipérbole dos meus medos.
E heis me perdido pelas escalas dos meus dias.
Heis me triste.
Heis me vivo.

Serious now,
Please dont go away
Dont get strained by my strain
Dont get upset because im not heroic
Dont fight my idiossincratic reaction to pain
Say: "Oh baby, I wish I had some morphine to give you"

O que não se dobra.
Que aguarda a tristesa olhando pela janela.
Que se embebeda de melancolia na tarde fria do fim de maio.
O malicioso sorriso careta não esconde
O que está dilacerado
E sangra.
Acho que estou com um nó no peito
Ou apenas machucado.
Submarinos dos meus sentimentos nadam no céu de sabão.

Dont waste your time in saying
Dont waste your time in looking
For sorrow

Relativos nos engolimos como sopa


                                 SP.29.05.17

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ensolarado

O sol sangrava lentamente a cidade
                                Em amarelo
Como pinceladas brancas aquarelando
            O céu poroso e esfarelado
                                              De outono.
Curioso como o tempo passa e nosso
            Estoicismo se esgota embora
            Nossos vícios permaneçam.
Curioso o que passa e o que permanece...
Ainda assim existem pequenas alegrias
             Como caminhar por pinheiros de
             Manha para comprar limões ou cortar
             O cabelo ou imprimir antigas cópias de
             Vestibular para estudo
Pinheiros é um bairro azul e amarelo.
                                         Amarelo e
                                      Azul.
As palavras tem um som engraçado...
Essa cidade é uma grande maluquice.
Passam os anos e passou o primeiro amor
             E passou o segundo amor e talvez
             Eu esteja apaixonado..
Não.
Eu estou apaixonado.
Não consigo levar as coisas de um jeito mais leve,
              Não consigo me interessar por ideologias,
              Noticias, fotos, fatos, política..
Meus pés de girassol murcharam mas
                                  Eu estou aprendendo
                                           A nadar nas piscinas de
                                                                  Geléia.
Eu estou aprendendo a voar
Caso não naufrague.
Eu estou aprendendo a dançar como os homens
                Estilhaçados com olhos de margarida
Flores de areia se contorcem através dos prédios
O sangue amarelo escorre pelas avenidas e as
                 Engrenagens de borracha desistiram
                 De girar para sair voando até Saturno.
Eu estou apaixonado.
Derrete sobre mim a cidade de manteiga
Chovem grossas gotas de
                                           Graxa.
Os sertões paulistas seguem o seu pulsar

O menino se desfaz em nuvens.



                                             São paulo, abril de 2017
                                                                 (Gripado) 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Entre o chão e o vento

A sina perpetua sob o marasmo

Também eu saio a revelia
E procuro alguma síntese
Nas demoras.
Qualquer amparo sob o liquido.
Eu queria mastigar com as
Retinas
Todos os cacos de poemas quebrados
Dessa vida.
E essa sufocante sede
Imobilizada na espera?
Eu quero escrever poemas sobre essa espera..

A vida trai a ideia
Na medida do sangue.

Esferas concêntricas
Explodem sonoras no céu de cubos,
Jardins de impulso no meu sertão,
Inflorescencias de carniça

Algo sobre a dualidade humana;

Eu ainda não posso acreditar na vida.

                   

                            Abril de 2017, serra


segunda-feira, 27 de março de 2017

O que ainda me diz a serra

O que ainda me dizem as araucárias?

O que antes era vivo hoje é tremulo.
Como posso erguer-me em cálido próprio
Quando o dia no céu assim como tudo no peito
Está inexoravelmente morto?
Pelas colinas ecoam as vibrações de vivacidade
Tão inalcançáveis quanto apaixonar-se
Ou ir embora...

O que ainda me grita a vida?
O que é a vida?
Como cabe a ela ser própria a algo
Da qual não foi chamada?
Como cabe a mim ser próprio a
Algo que não me pertence?

O verde ainda uiva
Nos pastos, embora opaco..

E o que me diz o azul
Sobre os sonhos diluídos em instantes
Que gotejam na chuva?
Id e Superego se esfaqueiam de forma enfática
Como dois doutores parnasianos
No pico da consolação.

A vida é boa mas ela é só a cara
E a coroa é o vazio.
O que resta para além do chumbo
É a vontade de poder
Carcomida
Pelo medo (estou com medo)...

Anel de plástico roxo
E eu sei que sou apenas
Diluvio ou morto de sede.
Fagulha inerte ou molécula triste ou
Montanha solitária de martírio
Abaixo do mar dos céus.
Eu sempre gostei de poemas de
Versos longos e lentos sobre a morte...

A inquietação gritava por mim;
A poesia se tornou estagnada
Assim como a vivacidade que me caracterizava
Como um movimento agitado.
A sombra era tremula mas ela tinha vozes.

Estou triste.

O que me dizem as araucárias?
Que o mundo é fluxo sem leito
E só no oco do meu peito
Corre um rio

Eu quero aprender a amar esse rio...


   
                                  Téo Puliti Serson
                                   Março de 2017, Gonsalves
                         
                             
                                 

quarta-feira, 22 de março de 2017

O chuviscar

Run rabbit run dig that hole forget the rain acho que eu ja passei tempo demais olhando a chuva, dizem que a vida vem pela frente e que se você quer ser alguém nela você precisa fazer umas funças e pá. Epopéias paulistas a passadas gigantescas, labirintos de Mahood, Worm ainda chora e peida. Eu não sei o que fazer de mim. Não sei onde estava para com meus deveres. Deveres, deveres, deveres, sei, mas eu juro que se algum dia eu deixar de olhar a chuva eu vou dar um tiro na minha própria testa – a chuva é tão bonita – lembra? As gotas caem de forma sóbria e esvoaçante e brincam e explodem no pátio, gotas de chuva tristes, gotas de chuva anárquicas. Charlie Parker – Laura – as vezes eu só queria que o tempo parasse nessa musica, seila, ter tempo para admirar a chuva. Chove chuva chora chora chora chora chora. E não sei. Eu tive um dia triste, muito triste. Eles dizem que a vida tá vindo. Espero que ela nunca chegue. Cair de costas e voltar a ser Worm, o feto. Curioso que a origem de todos os problemas sempre é e sempre foi a linguagem. Lembra-te? Quando era só Worm, sem Mahood, só Worm, e tudo era silencioso, vermelho e morno? Foram as agulhas da linguagem que primeiro perfuraram a célula totipotente de Worm. E seila eu de tudo isso. A linguagem se dispersa, se condensa, derrete, coagula, explode e você tenta se agarrar a fatos. Mas não existem fatos em metafísicas. Nem fatos morais para alem do fracasso. Talvez não existam fatos em absoluto. Não importa. Macunaíma aparece pela janela, mostra o pau e vai embora. Do que eu estou falando mesmo? Acho que eram de borboletas. O menino gostava de observar as borboletas. As pretas e amarelas eram as suas prediletas. Mas eles dizem que o menino precisa morrer mas se eu parar de ver a beleza das borboletas eu me mato. Morto de qualquer jeito. Só que vivo e o pior; sóbrio. (mentira). Preciso escolher as avenidas. Entrar numas universidades e pá. Give some Giant steps but were are My favourite things? Nem Coltrane mais sabe. Mas como alguém poderia saber do chumbo que pesa no MEU peito? Sobre as laminas que estão chacoalhando no MEU estômago? Sobre a inquietação de alguém que não sabe parar de mexer as mãos. Os pés. A língua. Falar. Hiperatividade, grande merda, um formalismo tosco para toda essa oceânica energia psíquica, energia, energia energia, fluido descordenadamente, fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo de forma metódica, de forma anárquica, de forma erótica, e as borboletas, eu as vejo voando em lambretas roxas em direção ao sol e lá se vão ao encontro deles, todos estão la; Worm Mahood Macunaíma todos orbitam alucinadamente em um turbilhão de elétrons jazzísticos de orgasmo. Eu não estava falando disso. Acho que eu tava falando do futuro. Ou não; apenas narrando mais uma das histórias de Mahood, as sempre interminaveis historias de Mahood. Eu só lembro que eu tava triste hoje. De novo.
Eu lembro que
Choveu
Gotas de vidro e agua
Que se estilhaçavam
No prédio dos correios e toda
A agua fria fervilhando chuva triste
Choveu.
Choveu muito.
E seila, nada acaba sendo muito concreto. Como se a existência de inanimada tenha se tornado impalpável. É um saco ficar triste mas eu juro que eu sou uma pessoa feliz ou nem isso; viva, pelo menos. É apenas aquele velho estado das coisas. Absurdo. Cíclico-linear. Round and round and round and round and round. O tempo flui de forma tão ilusória como a realidade. Disseram sobre um realismo que viria embutido na maturidade. Disseram que tem uma vida pela frente, funças pra fazer...
So run rabbit run run run run run run run run run run run run run fast until one day you become um homem velho sentado com uma garrafa olhando a chuva...
Um homem velho com uma garrafa olhando a chuva.
       



                                                       1ª segunda feira de março, 2017, São Paulo

                                                 

quinta-feira, 9 de março de 2017

monstros

as vezes fico inquieta e faço perguntas. me pergunto se sou como ele, se me faltam parafusos. calculo, delimito meu comportamento.

quando fico inquieta, me movo. preciso mexer algo.

seria apenas a substância que alimenta os monstros agindo sem dispertá-los?
seria eu mesma me enganando inserindo a tal substância?
querendo não ter parafusos ordenados.
querendo correr, listando empecilhos, me perdendo no caminho?

quando fico inquieta mordo as coisas. moldo-as.

quando fico inquieta necessariamente me vejo sucumbir vejo todo meu corpo se movendo tremendo instável na beira de um buraco.

já no fundo.

lá longe, grito por ajuda.

classifico os momentos de perda de mim como intensos, ardentes.
verdadeiros?

busco ajuda
movo as mãos sob as têmporas.

quando fico inquieta me sinto suja e pequena e sozinha e peço socorro e grito.
mas as pessoas não vem mostros,

e tenho medo de sujá-las com minha teórica podridão voluntária.

quando fico inquieta fico longe, só vejo eu e o tal movimento interno
não sou alimentada pelo resto
não sei.

quando estou inquieta tento me acalmar sozinha
desenhar os tais mostros,
escrevo delimitando frenéticamente as minha inutilidades internas externalizando-as também inutilmente.

quando fico inquieta
e explodo,
continuo só.

mas passa (?)
não sei.

(fevereiro, 2017)

terça-feira, 7 de março de 2017

Inconfessavel

Passo de palavra em palavra quase como correndo. Não sei em qual direção. Palavras que retornarão eternamente e por isso devem ser pensadas da forma mais azul possível. O azul é impossível, clamo por finalmente me confessar acima de qualquer efêmero. Sou impossível. Impossível de fazer-me, de realizar-me, de encerrar-me como única consequência. Nem passado nem futuro mas no que há entre eles, no corpo. Não tenho corpo, tenho carne. Carne mutilada pelo tempo, ossos quebrados e nacos de carniça que eu nem sei como me ocorreram. Eu atravesso sozinho com muletas esse oceano de açúcar. Cachoeiras de palavras rompem o dique do silencio, sempre o silencio, perseguindo o silencio, fugindo do silencio, sendo o silencio. Mas não conheço o silencio por traz das palavras. Heis as nossas únicas certezas, linguagem e tempo. Heis as maiores mentiras: linguagem e tempo. Conclui-se que a existência é mentirosa e eu, portanto, impossível. Eu impossível. Invencível. A passadas gigantescas. A maldita vontade de potência jogando na minha cara tudo o que eu sinto contra tudo que eu acredito. Talvez essa seja a minha vivacidade. Invencível. Frágil como um navio de vidro. Sozinho. Invencível. Que cada qual seja cálido ao seu martírio, ninguém será capaz de entender toda a perdição que cabe no meu peito. Dizem que isso é inquietação. Todos queremos dominar o mundo, talvez seja algo que venha embutido no parto. Mas faz-se impossível ser. A linha não mais existe, fragmentada, nunca existiu, apenas cachoeiras de palavras, cíclicas, redondas, invertidas, torna-se impossível. E essa fragilidade fetal, essa ausência de pele e amparo, essa nudez, essa nudez solitária, essa nudez solipsista, acho que no final sempre fui eu sozinho nesse quarto nu – as paredes não conseguem respirar – A vida, parece, tornou-se inacessível. Só nos resta escorrermos por nossos cus em alguma manhã cinzenta, após o cafe. A realidade é uma moeda de cara e coroa. Meus olhos pregados choram. Acho que eles nunca pararam de chorar. E sentir que as vezes a vida parece escorrer pelos nossos dedos. Tudo o que foi está para traz. Ou em cima. Ou em baixo. Do lado. Ao lado luzes difusas machucam o olho, as palavras nunca param, é bom se acostumar com isso. Dizem que é bom se acostumar. Se acostumar com tudo o que é impossível, irracionavel, inominável, indizível, extasiante, indiferente ou enlouquecedoramente triste. Se acostume ao oceano de açucar – inquieto – não subestime o eterno retorno ou seja um instante é igual a eternidade ou seja nunca se esqueça de olhar para alguma parte bem azul do céu no momento mais triste do seu dia. Eu quem? Eu onde? Eu quando? e acima de tudo Eu como? E porque? A vida e o seu instinto nato e inato de buscar com uma sede naufraga todos os destinos e inexoráveis e o sol de cristal. Invencível. E transversal. Subterfúgios. Inventar as cores do girassol. Inventar a vida! É preciso inventar a vida! É preciso reinventar urgentemente a vida!! Mas nada diz nada sobre nada, as palavras continuam. Sempre palavras, parece que bem quando a gente se acostuma tudo começa a dar violentamente errado. Somos alheios a nossas vidas como um seringa descartável ou um vaso de carne ou uma nuvem de chuva. Mas continuo indizível. Continuo inconfessado. Continuo impossível. Talvez eu só confirme um velho estado das coisas.  Talvez eles apenas não gostem de mim. Talvez eu mesmo não goste de mim. Ou talvez goste. Caminhe em frente até que se esgotem as garrafas de eletricidade! Mas em frente onde? Me anulo de frase em frase ou com o passar do tempo. Me anulando me confirmo. A incerteza me faz eu. Eu não sou eu. Eu sou. Não sou. Sou. Não sou. Não sei de que fardo fui incumbido mas nota se que eu não o carreguei com êxito. Nunca me explicaram o que era esperado de mim mas eu decepcionei a todos, decepcionei a todos. Não consegui fazer o que queriam que eu fizesse, nem o que eu desejava fazer e nem desejar nada em nenhuma instancia. Também não consegui entender. Fiz-me impossível. Indizível. Eu não vou desistir. Eu vou continuar. Eu não posso continuar. Eu vou ser esse furacão verbal e tudo mais que couber no peito. Eu vou ser. Chorar.

Eu vou inventar a vida


                             2017, São Paulo
                                 

segunda-feira, 6 de março de 2017

A morte de um porco fosforecente

Era carnaval e as
Carcaças de porco eram
Molestadas e mutiladas na rua
Por um pouco de
Cachaça barata

Era verão
E os alucinados
Estavam banhados em um
Verniz engordurado
E fosforescente

Era frustrante
E era impossível
E era absolutamente inconfessável
O fracasso e
A amoralidade de qualquer ou quaisquer

E era triste
Pior
Era morto

Brilhe loucamente seu diamante maluco!
Aprenda a morrer...
                         






(Carnaval de 2017, São paulo)

     
                   
                               

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Ou nem isso

Falar?
Tudo bem que tudo não passa de palavras
Mas dizer?
Não há nada a ser dito,
Nada a dizer
Mas apenas uma chama arqueada ao abismo

Literário como acima
Ou nem isso
Um jovem de cigarro na boca que não passou
          Na faculdade e vai tentar a sorte no mar
Superficialidade cotidiana e um gosto amargo de café
Cena de adolescentes de classe média alta e uma pinta
           De alternativos, alguma náusea
Algo escrito em cimento ou papel
Vestibular
Sair de casa
Sou eu o eterno prosaico transcendental
A trabalho a ser feito, vida pela frente

Inconstante como acima
Ou nem isso
Isolado preso dentro dessa dura caixa de ossos
Do crânio
Sozinho

Fui condenado a nascer sem saber morrer
{você pra mim é problema seu}
                          
                                                    Fevereiro de 2017, SP
                                      

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Poesia de Hermiliano 




Piedade madame... piedade                                              
Round Midnight bem tocado pelo
BaDen Powell

esse título estúpido de
óleo escorrendo por seu corpo nu e sensual

Sujeira, sujeira, poeira, amoreira
Quando eu era pequeno

Piedade Pai, Pai Deus, Deus meu ó pai ó pai
...
martelada em vosso pai!
Seu filho da puTa!
FILHO DA PUTA É VOCÊ...
e apanhou
apanhou
apanhou
o outro fugiu


Distorce minhas palavras
que como os seus lábios de cachorro
lambem o meu pau feito de ouro, palavra

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Minha vida no arbusto dos fantasmas

O sol surge gorduroso no horizonte
As flores da cidade emanam o seu concreto
           fedor de morte
Você se lembra quando a noite era um
           oceano povoado de flores submarinas
           e os rios escorriam para dentro de
           nossos crânios?
Abra a porta em que eu bato chorando, eu
            choro, e os rebanhos metálicos me
            despem da austeridade em nome da nudez
Sou nu
E em minha virilha brotam florestas de araucárias,
             o sol gorduroso escorre pelos meus poros
Caminhar pela fina corda esticada acima do abismo
             exige que se contenha o abismo dentro de si
             e que seja dito sim ao eterno instante e a tudo
             o que for questionável ou mesmo temível
Da mesma forma que o peido é o preludio da bosta
E do correr dos dias fiz me bosta. Bosta.
O sentido da vida é a Homeostase (manter o meio interno estável)
Das barbas salgadas
                   Do tempo
Do fato do parto que
              Fez-se
        Concreto
E da vida restou, talvez
Epifania.
Eu preciso transformar matéria em energia ou vice versa
Talvez, fluir...
Ou chorar gotas lívidas de álcool
Avoado, atônito, injeção de eletricidade na testa, me sinto
             meio morrendo, mas ainda assim feliz
Onde está minha pele, onde está a maldita proteção que eu preciso?
Tudo que é sublime se encerra na bosta
Coquetel de melancolia;

Sol pecoço cortado


                                   Fevereiro de 2017, São paulo

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Conversar, hesitar e verbos aleatórios de uma manhã quente.

                    
                                                                                                                  Bento Hubner







Hesitar e pa
q foi que aconteceu
metade, ou simplesmente,
pa paa
veem
quadradinho
mala, outro jeito de organização
novo
n me choca mais? he
etapas e conversando
de bunda
proponha o novo
algo que revolucione a constituição
ficar bêbado
n sabe escrever
n vai estar escrevendo!
texto oral
construção textual
poder se ouvir
na voz de vcs eu escuto metade dos barulhos e baralhos e estou embaralhado
embalsamado? que palavra brega
hahhahahaha
estou embaralhado por esses vidros que me olham verdes, vermelhos
e do lado
entre vasos sanguineos, sonhos
fico procupado
com você, comigo
com dinheiro
no meio desse lugar tosco e de todos vcs
passos, passos
epifania.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Os girassóis vermelhos

Fumando nossos cérebros a 700 kilometros por hora
         Através de Goiás através da estrada
    Buritis e colinas orbitando o sol
 Cachoeiras de fumaça delirante em cristalinas nuvens
E sanguinolentos baseados anestesiando
Garotas com girassóis vermelhos gotejando do ventre
Dissolvidos em leitosas constelações de eletricidade e horizonte
                      Arvores retorcidas
Com a moral anestesiada
Por planícies vulneráveis da mais sublime desolação trompetes
Alucinados caçando minhas visões pelo cerrado
Ardente
    Marijuana através da chuva
E eu continuava a contemplar os olhos doces
             De Marialice (poesia)
Terra vermelha músculos cansados
Perspectivas angustias avenidas e saudades zunindo através do
          Meu cérebro para dentro da cidade espectral onde eu orbito
          Voando
                     Fumando meu crânio através do eterno retorno e
                     Para além do bem e do mal
Gritam juntos a pulsão de vida e o medo e as
Lebres com relógios que injetam morfina e perguntam
Para Platão pelo sentido da vida
Lagrimas ansiosas rastejam pelo meu delírio
        Passado presente e futuro suturados a uma lua nascente
Uivando um solo de saxofone pela eternidade
Nietzsche voando em um trem com Orfeu ouvindo
Villa Lobos e declamando Allen Ginsberg para o nada
Marialice com seus olhos tristes e doces olha para  o
                                                           Trem
           E chora e reza para a chuva e para o tempo para que
Os dias pesem menos e não sangrem
Estou sentado em uma rede no camping chapado de maconha
   Matamos a moral abaixo de um céu arroxeado
Enquanto cruzávamos a aurora boreal de Kilimanjaro
E éramos cuspidos pelo cu da eternidade em uma
Tempestade mastigada em LSD
         Maria madalena mãe de Jesus Cristo sangrando
E respingando sangue através do cerrado rodopiando
Em uma cruz flamejante embebida em tequila
             Lightning Hopkins dedilhando sua guitarra gotejante
Abaixo de uma arvore retorcida
                                                Cubos
Voam pelo entardecer como as barbas longas e salgadas de Dostoiévski
E
Eu meu inconsciente e meus navios e minhas navegações
Pelo interior de Goiás
                  Linhas de contrabaixo injetam Coca Cola e anfetamina
Na minha imaginação
Matamos Marialice dos olhos doces e sobre a amoralidade
Da incerteza nós continuávamos
O nosso voo a 700 kilometros por hora através
Das tripas ocas do silencio.

(Marialice nos fita deitada no horizonte
Abaixo de um triste girassol vermelho)




4 de janeiro, São jorge
Goiás


Bolor

Havia algo de inanimado
Na carne. Do céu sobraram
Escombros e uma pasta fétida
De chumbo e urânio.
Um grito entalado em uma colina
De bolor. Silencio.
Como se de repente
Tudo estivesse morrendo e
Fosse difícil de fazer
Nascer.
Estrangeiros acendem seus cigarros
Na cozinha e
Os hipopótamos injetam cachaça e morfina
Nos cus dos ornitorrincos
De madrugada.
Laminas perfuram o tecido da noite
E os macacos usavam drogas
Em uma sapiência ambígua.
A lua
Flamejava queimando nos cachimbos
Rostos hesitantes cortavam e colocavam no congelador
Pedaços uniforme e sangrentos da carne
De Deus. O vazio carcomia nossos dias.
O naufrágio me ensinou
A ver. Polimorfos simbólicos dos
Dias costurados.
Mascaras de fórmica embalam
A nossa diabólica orgia auto-censurada.
O vazio virou chumbo
E o escombro inanimado.
Suportar cada gole de bolor
Para poder vomitar o tecido da noite
Ejaculando delirante nas cachoeiras de carniça
Ao amanhecer.


Janeiro de 2017, Boituva

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Entremeado ao útero

Eu te procurava naufrago
Entremeada
                 Ao azul.
Eu te buscava entremeada
                    A deriva do verde,
Entremeada a serra, ao seio, ao fado.
Eu escavava o horizonte e rasgava
O entardecer
Mas você estava entremeada
Unicamente a ausência e ao branco
E ao peito
Restava o fado.
Os dias orbitavam-se leves
De baseado a baseado
Como tema de Davis e John
Entremeados a montanha
Estendendo-se pela silhueta de toda a deriva
                                                         do pasto.
Os pinheiros dançavam como espantalhos
E ao coração
Só restavam as araucárias
E os velhos LPs de blues rasgando na vitrola a triste desolação dos dias mais doces.
Eu te procurava naufrago e louco
Entremeada ao nada
Ou entremeada ao sonho.
A alma
Entremeada nas estradas de terra musculares
Que nos levam a embriagues do azul
Ou a solidão coagulada na deriva.
(Eu sou o céu).
A tarde caminhava cremosa
Por entre toda a sua face absurda
E as nuvens choravam tristes da paz que lhes dei...
Nem fracasso, nem medo
Não és moral para quaisquer e ainda há muitos dias pela frente.
Pelas bordas da Mantiqueira
E dos rios que escorrem do meu crânio
Ventres espectrais que navegam a esmo no céu
No seio da nuvem.
Da serra ao vazio ao grito
Da ausência.
Busco te entremeada a carne e a rocha
Busco te entremeada ao vale e ao sangue da sombra.

"Eu sei o que é ser louco, eu sempre fui louco"
Minha existência liquida ecoa por entre montanhas,
A tarde segue a caminhada que lhe é própria.
O lunático continua no gramado
& minhas memórias atiradas no abismo e meus olhos,
                   Meus manuscritos, meus amores
Pulam no caos
Como relâmpagos explodindo em direção a cúpula
Cristalina no céu de acrílico.
– ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante –

(Nos vemos no lado escuro da lua)





Dezembro de 2016, Natal



Borboletas de vidro e de sal

Meus olhos carcomidos de borboletas
E todo sal que existe no meu coração.
Atravesso as imagens em um ímpeto
Cujo qual um grito seco
E nas bordas esponjosas do horizonte
Eu bebia o mar em goles
Secos
E azuis.
Como se toda vidraria das paginas
                                      Tenha
                         Se estilhaçado no tempo.
Oceano de carne anestesiado pela paisagem de morfina
E anjos verdes e surdos que incendeiam o céu cristalino
Em
Lascívia e em manifestos niilistas que dão a descarga no mundo.
Plenitude baurética
E meu coração mastiga trechos da minha vida
E as nuvens não se apoiam em nada
E eu não apoio em nada.
Faíscas
Florestas de cobras verdes nos meus olhos
Nádegas silhuetadas na agua e
                                             Seios
                                   Nadando através do sol.
O sémen respingado nas areias oníricas...
Vicio é a incapacidade de não reagir a um estimulo,
Receba todos os cavalos na carne!!
Lírios
Escorrem dos olhos do mar como
Um saxofone ou uma livre associação espontânea.
Rostos arcaicos nas serras profundas de traz do chalé.
Minha existência acende velas no meu crânio
Tapete de fogo azul de gim e
Beijos ecoando nos reflexos
             Torneiras tossindo, ondas gemendo no mar.
Mosquitos passeando em volta das minhas angustias
Entre as colisões;
Do parto ao estrondo.
Chove sobre mim minha vida inteira
Entre a solidão e o sangue.
{moral como antinatureza}
{mundo verdadeiro enquanto fabula}
{razão é decadência}
Vontade, consciência e espirito
Como um jazz fusion muito chapadão
(Como se filosofa com o martelo).
Ahh se por acaso mude a escala dos dias
E as mentes fiquem sonhando penduradas nos esqueletos de fósforo
Invocando as
Coxas do primeiro amor brilhando como uma flor de saliva.
Poesia
Onde os mortos se fixam na noite e uivam por punhados de pena,
Onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação.
Ah nega!
E se por acaso eu pudesse dedilhar do fundo do meu coração
Minha plenitude agitada e a
Minha alegria inquieta?
Pois existir poderia ser mais leve e liquido como
O mar.
Borboletas voam para o horizonte na sua tristeza azul,
Eu anoiteço em meio ao meu sol respingado de verão.

(Os dias transcorriam-se tranquilos no chalé praiano)




Ubatuba, 18 de dezembro, 2016












sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

eu tenho medo

e pelo fato de que simplesmente continuo apenas capaz de lista-las, as angustias. necessidade de reafirmar pra si que talvez você tenha vozes excessivas e que nunca, menina manuela, nunca você vai rete-las o suficiente pra deixar de vazar. pelo medo de vazar e saber que as informações não podem ser alcançadas. pela lembrança da história segredo e pelo medo de estar progressivamente se aproximando da nudez frágil que por mais que verdadeira assusta crianças ou até os maduros que acabam tocando elas, pessoinhas. pelo fato de que queria que pudessem pelo menos conversar entre si, chegar a acordos racionais e sábios. mas são tantas que os acordos são inalcançáveis: não existem conversas verdadeiras com aqueles que falam diferentes idiomas. e eu peço suplico para que aprendam línguas em comum, mas os professores também não existem e as pessoinhas se mantém proximas de suas origens. pelo fato de que sim, menina. você nunca vai saber o que se quer como se quer onde se quer e quando se quer. pelo fato do querer virar precisar, menina. e pelo fato de que mesmo você pedindo, você é incapaz de fugir da sua nudez e fragilidade, essa sim, a causa e sintoma da sua decadência, seu constante desespero, dos berros das vozinhas das pessoas que crescem e ocupam um espaço que não merecem. em sumo... da queda.

Um dia, uma noite, três vidas ou só uma lembrança estranha e encardida?

Bento Pestana



As cordas do violão soam na chácara da família Barros Limeira.
As cordas do violão eram esticadas e comprimidas pelos dedos de Geraldo.
As ervas cidreiras no batente da janela começaram a ocupar, com todas as ramificações de seus galhos, todos os lados da casa.

Casa...casa... A casa era só um ambiente esfumaçado, que uma produtora de LSD ocupava.
Cheiros, cheiros, cheiros
Um homem viajava deitado no sofá, outro lambia um saco plástico que ainda guardava migalhas de uma substância química aleatória
Geraldo abandona o violão
Miles Davis começa, com pequenos toques em sua música, a transformar as coisas. Primeiro, elas desfocam um pouco, depois cada vez mais nítidas e quase como consequência,
Essa turbulência nos sentidos passa a arrastar o mundo inteiro para um caverna formada por cristais azuis.

-Paulo?! Paulo!?
-Que foi!? Fala mais baixo!
-Você pode descrever o que você está vendo pra mim?
-Amigo, vejo o chão pintado pelo reflexo do lago, que reflete as luzes das estrelas. Olha!
-Sim!!
-O céu é iluminado por rastros do pôr do sol e luzes absurdas que se misturam em um roxo alaranjado. Mas a casa é a mesma, veja!
-Sim... os queridos continuam por aí e o velho Márcio foi vender suas drogas na cidade.

montanha atravessada por uma estrada vazia e bonita. vales, morros, flores se esparramam pelos arredores e o nosso Fiat Mille vermelho segue a 100000 Km/h cruzando o asfalto e nada, nada mesmo, parece flutuar tanto quanto as rodas do nosso querido carro ou nossos olhos cor de ameixa. Os meninos também olham pela janela e amam o que vêem
Pingos de chuva esbarram na gente, me molho e lembro dos seus olhos,que jurava ter esquecido. Todo seu corpo junto ao meu corpo e tudo isso que acontece ou deixa de acontecer.

Isso foi só um dia turvo
Ou
Turvo estava o dia, ou pelo menos,
fosca estava a manhã no dia 27 de dezembro.
Mais do que isso, o cinturão verde de São Paulo, Mogi das Cruzes e outras cidades,
Foi invadido por dois meninos loucos que começaram a fumar maconha e andar numa moto, matando gente pela cidade.

Bosques de pedra na cidade de São Paulo
Eu, nu, com minhas roupas largadas e um maço de cigarros saio da estação Consolação e ando pela Paulista.
Isso aconteceu à alguns meses atrás quando tu não era tu.

Sentado nessa mesa de almoço com minha família inteira reunida, onde os assuntos como a cor do telhar parece ser algo tão verdadeiro, minha avó fica parada, sem nenhuma noção ou concentração. Ela está doente e todo mundo preocupado. Ninguém fala no assunto, só as filhas dela envenenam a mesa com certos comentários sobre o que minha avó havia esquecido. Claro, poderiam fazer uma lista. O chão de madeira é velho, tudo aqui é velho e quase todos os valores parecem ruir, com os pratos quebrados e vozes que sentam ou sentaram naquela mesa um dia,
a gente consegue ver umas baratas no jardim, outras dentro do piano, a cozinha parece um manicômio por onde formigas saúvas passam e passam atrás de velharias para esconder embaixo da terra.
Meu primo bebe um gole de guaraná.
Meu tio adverte minha irmã enquanto ela come
Minha tia e minha mãe discutem o nome de uma música e meu avô conversa com o agregado da família.
Minha vó parece distante, talvez falando dentro de sua cabeça conosco.
Minha irmã me olha... meu primo me olha... eu olho para o nada
Isso é relevante? Essas pessoas grunindo, tossindo, comendo, babando. Deliro em silêncio, minha vó observa seus fantasmas que habitam a casa e sua cabeça
enquanto no almoço, os frangos são distribuídos e repetidos por todos.
Aquele almoço é um flash back, uma memória ou uma mistura de lembranças que sussurram e angustiam todos os presentes, e todos sem exceção vêem aquela que um dia já foi nova, já amamentou os tios e tias, mães e pais da família perder sua vida a cada dia. E cada dia passa morto como se fosse o começo de uma lembrança estranha que se misturou-se com outras tantas, estranhas ou não.

Espaço que o tempo ocupa
O dia que passa amarelado
Isso já aconteceu
Estou nu e sujo e nos meus sonhos as pessoas morrem
as vezes, sou eu mesmo que mato



Pesadelos pichados. Eu morri? Está tudo quieto e machucado...está tudo quieto e machucado

Jão escuta um apito agudo. Jão olha para os lados da piscina onde dormia, reconhece alguns momentos de alucinação e simplesmente começa uma marcha frenética em direção ao som do trompete
                                          São Paulo- dia 11-dia 27
                                          Mogi das Cruzes- dia 27-29

O transito está parado e... estamos só nós dois e esse calor escroto, além de nosso cigarro.
Solo quente do asfalto, os carros escorregam pelos acostamentos para ganhar tempo. Que tempo?
Logo aqueles dois caras também chegam e parecem exaustos de alguma noitada. Ascendemos um cigarro...mar, praia, mar, praia, mar, chapada, mar, chapada, cachoeiras gigantescas um folha eu, ela, ele, aquele, outro, coisa e tal

Eu e Pedro, homens nus, com olhos tortos e chapados...
Vamos abrir uma biqueira na Casa Branca
Pau no seu cu Tatu:)

E na casa ainda se ouvia as notas do miles e
                                                               tudo era você e tudo era você
                                              seja lá quem for,
                                                                     como diria Tencio
                                           Um dia, chegaremos ao mar e há de ser sublime.





quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ao que vai nascer

       Teodoro nascia e vivia em um sertão que lhe era próprio. As pequenas roças de milho e fumo banhadas pelo roxo e o laranja dos entardeceres eram a sua sina e ele queria ser todos os destinos e inexoráveis em sua ansiedade palpitante de seus breves  dezessete anos.
       Em uma tarde solta Teodoro sentia o silencio sob o peito. Estava inquieto. De sua janela via o moinho amarelo e os olhos doces de Alice navegando pelo céu ensolarado de uma paz sertaneja. Tomou meio copo de um café morno do bule em cima do fogão a lenha da cozinha e saiu para dar um passeio em sua bicicleta vermelha onde diariamente diariamente ruminava os pesos e os dias. As nuvens estavam mastigando o marasmo e as pedrinhas vermelhas da estrada de terra farfalhavam sob a roda da bicicleta enquanto Teodoro estendia seus olhos vividos e redondos pelas planícies desoladas do cerrado. Não cabia em seu peito as incertezas de ser mais um homem caminhando sobre esse chão poeirento. Algo o incomodava la dentro, um peso estranho e abstrato junto com uma sede inexplicável de viver mas para alem da melancolia estava até alegre. Sorria.
       Prosseguia pedalando pelo seu sertão.
       Ouvia nitidamente em seu coração a sua ultima conversa com o velho Hugo Salomão. Hugo era um velho homem que criava galinhas em sua granja e estudava filosofia nas horas vagas. Estavam ambos sentados na sala do velho tomando café com leite em xícaras azuis. Hugo sentou na sua poltrona e acendeu um cachimbo de tabaco. Desde pequeno Teodoro adquiriu o habito de varar longas tardes jogando conversa fora com o velho. Hugo Salomão deu duas baforadas fumegantes no seu cachimbo e começou a balbuciar sonolento:
         " – Sua angustia é imatura. Possuis uma sede lasciva de ser a vida em todos os seus âmbitos e destinos. Quer fazer ser de verdade, quer chegar ao mar mas ainda é simplesmente muito jovem. Não leve a mal, um dia vais entender. Gosto muito de ti Teodoro, tens olhos doces e é um menino sensível. Qual a sua moral? A hipérbole da razão é saber quais deuses devemos matar e quais devemos fingir estarem vivos. Talvez sua cabeça não esteja pronta para enfrentar seu tempo mas é preciso dar um tiro no escuro: um sim, um não, uma linha reta e uma meta. Entre o pensamento e a expressão existe o tempo de uma vida.
         – Tenho medo Hugo – disse Teodoro hesitante – minha única moral é o medo que eu sinto.
         – Pois é a única moral para quaisquer. Acerte sem dó os ídolos com o diapasão do martelo para ouvir seu eco seco, oco e visceral. Não siga lideres. Viver é um deriva que exige apenas muitas lagrimas nos olhos e muita coragem pra suportar. Talvez a única solução o para a vida seja ou Deus ou a morte. Não busque soluções, seja absurdo. Um homem que vive de antagonismos honra a vida pela tragédia. Metafísica é apenas outro nome para as figuras em exibição. Ache uma garota com olhos doces e se case, se quiser. Tenha calma e viaje muito, nunca guarde seu coração inteiro para si. Aprenda a navegar pelo método e pela pulsão. Sofra. Diga não a fabula eterna que cega mas sim ao rosto, ao gesto e ao drama terreno que exigem uma difícil sabedoria e uma paixão sem amanha.
          – Meus sonhos para alem do sertão me apertão o peito. Devo ir ou devo ficar?
          – A grande questão de cada homem é decidir a morte interna do seu Deus ou do seu diabo.
          – Devo ir??! – Os olhos redondos de Teodoro faiscavam de ansiedade e inocência.
          – Decida por você mesmo" – O velho concluiu e deu uma baforada fumarenta em seu cachimbo.
          A lembrança da conversa o angustiava. Precisava se tornar alguém mas quem e porque? Será que ele era algo para além de um poço de duvidas e um sorriso? A tarde engatinhava sonolenta. As nuvens gigantescas espalhadas pelo céu de um começo de entardecer, as nuvens pontilhadas e esticadas por espátulas e os floquinhos sólidos de nuvens de leite navegavam a esmo. A estradinha vermelha seguia infinita cortando pastos e plantações de milho e cana de açúcar. Esporádicas casinhas de tijolo onde cachorros vira latas latiam ou caipiras entediados fumavam cigarros de palha em cercas de arame farpado.
        O sol irradiando pelas planícies desoladas do cerrado subitamente o lembraram dos suaves cafunés de Alice. Seu coração voou para aqueles momentos que sempre guardava dentro das caixinhas especiais das memórias bonitas;
        Outra tarde ensolarada. No açude ao leste da vilazinha Teodoro e Alice nadavam pelados e despreocupados. Gostava de passar os dias a contemplar os olhos doces de Alice. Sairam da agua e olharam para as nuvens. Teodoro deitou no colo dela e começou a devanear. Alice fazia um cafuné carinhoso e acendeu um baseado. Seus seios morenos palpitavam ao sol e ela lhe deu um beijo cálido.
        – "Alice, o que tem depois do céu?
        – Talvez a noite.
        – E depois da noite?
        – Seila Téo, hehehe, como eu vou saber? Alem do mais você se faz perguntas de mais menino.
        Teodoro fumou com calma o baseado. Não sentia pressa. Olhou para os olhos de Alice. A tarde estava explodindo em um céu de fogo. Alice suspirou e deu um sorriso. Apagou a bagana. Seus olhos fitavam o açude e todas as colinas em volta.
        – Qual o seu sonho Téo?
        – Voar até o céu
        – Mas o céu é só um lugar onde nada nunca acontece
        – É sublime, não sei... – devaneava Teodoro – ... Alice, você tem olhos tão doces...
        – O céu é doce Téo?..."
        A cena se esvaia como o tempo escorrendo pelas suas mãos. Teodoro continuava a sua meditativa pedalada pelo entardecer.
        Agora o sol se punha de fato. Tudo girava em sua cabeça: As certezas, os medos e as inquietações e todos os anos doces passados naquele sertão timido e todas as colinas que o cercam e tudo que esta para alem delas, uma sede de vida, uma sede inexplicável de vida, uma inexplicável e naufraga sede de vida. E pensava em Hugo Salomão, e em Maria Alice, pensava nos pais, nos irmãos e no seu querido e único amigo Godofredo. Se fosse se tornar alguém seria apenas uma consequência. Consequência  dos medos e dos sonhos que não cabiam no seu peito nos entardeceres vermelhos. Sabia que só tinha o dia e a noite como companheiros e sabia que amava a vida. A odiava também mas no final Teodoro era simplesmente incapaz de desprezar algo.
        Chegou ao final da estrada e olhou para o velho e gordo sol se pondo atrás do vale depois do pasto e explodindo em vermelho, azul, rosa, roxo, laranja, lilás. E chorava, chorava tudo, chorava os pesos e os sorrisos, chorava o mundo, a saudades do futuro e o esplendor colorido da vida que se explodia naquele por do sol no cerrado.
         Jurou sua existência para aqueles céus.
         Levantou seus olhos vividos e redondos para a bola flamejante que mergulhava entre as montanhas. Sabia que nada sabia...

          Teodoro olhou para tudo aquilo e não sabia se ele que esperava a vida ou a vida que aguardava ansiosamente por ele.
           (Iria descobrir por sua própria conta)



                                         7 de janeiro de 2017, chacara, Brasilia,
                                                                                                             (Téo)