Um dia, uma noite, três vidas ou só uma lembrança estranha e encardida?
Bento PestanaAs cordas do violão soam na chácara da família Barros Limeira.
As cordas do violão eram esticadas e comprimidas pelos dedos de Geraldo.
As ervas cidreiras no batente da janela começaram a ocupar, com todas as ramificações de seus galhos, todos os lados da casa.
Casa...casa... A casa era só um ambiente esfumaçado, que uma produtora de LSD ocupava.
Cheiros, cheiros, cheiros
Um homem viajava deitado no sofá, outro lambia um saco plástico que ainda guardava migalhas de uma substância química aleatória
Geraldo abandona o violão
Miles Davis começa, com pequenos toques em sua música, a transformar as coisas. Primeiro, elas desfocam um pouco, depois cada vez mais nítidas e quase como consequência,
Essa turbulência nos sentidos passa a arrastar o mundo inteiro para um caverna formada por cristais azuis.
-Paulo?! Paulo!?
-Que foi!? Fala mais baixo!
-Você pode descrever o que você está vendo pra mim?
-Amigo, vejo o chão pintado pelo reflexo do lago, que reflete as luzes das estrelas. Olha!
-Sim!!
-O céu é iluminado por rastros do pôr do sol e luzes absurdas que se misturam em um roxo alaranjado. Mas a casa é a mesma, veja!
-Sim... os queridos continuam por aí e o velho Márcio foi vender suas drogas na cidade.
montanha atravessada por uma estrada vazia e bonita. vales, morros, flores se esparramam pelos arredores e o nosso Fiat Mille vermelho segue a 100000 Km/h cruzando o asfalto e nada, nada mesmo, parece flutuar tanto quanto as rodas do nosso querido carro ou nossos olhos cor de ameixa. Os meninos também olham pela janela e amam o que vêem
Pingos de chuva esbarram na gente, me molho e lembro dos seus olhos,que jurava ter esquecido. Todo seu corpo junto ao meu corpo e tudo isso que acontece ou deixa de acontecer.
Isso foi só um dia turvo
Ou
Turvo estava o dia, ou pelo menos,
fosca estava a manhã no dia 27 de dezembro.
Mais do que isso, o cinturão verde de São Paulo, Mogi das Cruzes e outras cidades,
Foi invadido por dois meninos loucos que começaram a fumar maconha e andar numa moto, matando gente pela cidade.
Bosques de pedra na cidade de São Paulo
Eu, nu, com minhas roupas largadas e um maço de cigarros saio da estação Consolação e ando pela Paulista.
Isso aconteceu à alguns meses atrás quando tu não era tu.
Sentado nessa mesa de almoço com minha família inteira reunida, onde os assuntos como a cor do telhar parece ser algo tão verdadeiro, minha avó fica parada, sem nenhuma noção ou concentração. Ela está doente e todo mundo preocupado. Ninguém fala no assunto, só as filhas dela envenenam a mesa com certos comentários sobre o que minha avó havia esquecido. Claro, poderiam fazer uma lista. O chão de madeira é velho, tudo aqui é velho e quase todos os valores parecem ruir, com os pratos quebrados e vozes que sentam ou sentaram naquela mesa um dia,
a gente consegue ver umas baratas no jardim, outras dentro do piano, a cozinha parece um manicômio por onde formigas saúvas passam e passam atrás de velharias para esconder embaixo da terra.
Meu primo bebe um gole de guaraná.
Meu tio adverte minha irmã enquanto ela come
Minha tia e minha mãe discutem o nome de uma música e meu avô conversa com o agregado da família.
Minha vó parece distante, talvez falando dentro de sua cabeça conosco.
Minha irmã me olha... meu primo me olha... eu olho para o nada
Isso é relevante? Essas pessoas grunindo, tossindo, comendo, babando. Deliro em silêncio, minha vó observa seus fantasmas que habitam a casa e sua cabeça
enquanto no almoço, os frangos são distribuídos e repetidos por todos.
Aquele almoço é um flash back, uma memória ou uma mistura de lembranças que sussurram e angustiam todos os presentes, e todos sem exceção vêem aquela que um dia já foi nova, já amamentou os tios e tias, mães e pais da família perder sua vida a cada dia. E cada dia passa morto como se fosse o começo de uma lembrança estranha que se misturou-se com outras tantas, estranhas ou não.
Espaço que o tempo ocupa
O dia que passa amarelado
Isso já aconteceu
Estou nu e sujo e nos meus sonhos as pessoas morrem
as vezes, sou eu mesmo que mato
Pesadelos pichados. Eu morri? Está tudo quieto e machucado...está tudo quieto e machucado
Jão escuta um apito agudo. Jão olha para os lados da piscina onde dormia, reconhece alguns momentos de alucinação e simplesmente começa uma marcha frenética em direção ao som do trompete
São Paulo- dia 11-dia 27
Mogi das Cruzes- dia 27-29
O transito está parado e... estamos só nós dois e esse calor escroto, além de nosso cigarro.
Solo quente do asfalto, os carros escorregam pelos acostamentos para ganhar tempo. Que tempo?
Logo aqueles dois caras também chegam e parecem exaustos de alguma noitada. Ascendemos um cigarro...mar, praia, mar, praia, mar, chapada, mar, chapada, cachoeiras gigantescas um folha eu, ela, ele, aquele, outro, coisa e tal
Eu e Pedro, homens nus, com olhos tortos e chapados...
Vamos abrir uma biqueira na Casa Branca
Pau no seu cu Tatu:)
E na casa ainda se ouvia as notas do miles e
tudo era você e tudo era você
seja lá quem for,
como diria Tencio
Um dia, chegaremos ao mar e há de ser sublime.
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