segunda-feira, 27 de março de 2017

O que ainda me diz a serra

O que ainda me dizem as araucárias?

O que antes era vivo hoje é tremulo.
Como posso erguer-me em cálido próprio
Quando o dia no céu assim como tudo no peito
Está inexoravelmente morto?
Pelas colinas ecoam as vibrações de vivacidade
Tão inalcançáveis quanto apaixonar-se
Ou ir embora...

O que ainda me grita a vida?
O que é a vida?
Como cabe a ela ser própria a algo
Da qual não foi chamada?
Como cabe a mim ser próprio a
Algo que não me pertence?

O verde ainda uiva
Nos pastos, embora opaco..

E o que me diz o azul
Sobre os sonhos diluídos em instantes
Que gotejam na chuva?
Id e Superego se esfaqueiam de forma enfática
Como dois doutores parnasianos
No pico da consolação.

A vida é boa mas ela é só a cara
E a coroa é o vazio.
O que resta para além do chumbo
É a vontade de poder
Carcomida
Pelo medo (estou com medo)...

Anel de plástico roxo
E eu sei que sou apenas
Diluvio ou morto de sede.
Fagulha inerte ou molécula triste ou
Montanha solitária de martírio
Abaixo do mar dos céus.
Eu sempre gostei de poemas de
Versos longos e lentos sobre a morte...

A inquietação gritava por mim;
A poesia se tornou estagnada
Assim como a vivacidade que me caracterizava
Como um movimento agitado.
A sombra era tremula mas ela tinha vozes.

Estou triste.

O que me dizem as araucárias?
Que o mundo é fluxo sem leito
E só no oco do meu peito
Corre um rio

Eu quero aprender a amar esse rio...


   
                                  Téo Puliti Serson
                                   Março de 2017, Gonsalves
                         
                             
                                 

quarta-feira, 22 de março de 2017

O chuviscar

Run rabbit run dig that hole forget the rain acho que eu ja passei tempo demais olhando a chuva, dizem que a vida vem pela frente e que se você quer ser alguém nela você precisa fazer umas funças e pá. Epopéias paulistas a passadas gigantescas, labirintos de Mahood, Worm ainda chora e peida. Eu não sei o que fazer de mim. Não sei onde estava para com meus deveres. Deveres, deveres, deveres, sei, mas eu juro que se algum dia eu deixar de olhar a chuva eu vou dar um tiro na minha própria testa – a chuva é tão bonita – lembra? As gotas caem de forma sóbria e esvoaçante e brincam e explodem no pátio, gotas de chuva tristes, gotas de chuva anárquicas. Charlie Parker – Laura – as vezes eu só queria que o tempo parasse nessa musica, seila, ter tempo para admirar a chuva. Chove chuva chora chora chora chora chora. E não sei. Eu tive um dia triste, muito triste. Eles dizem que a vida tá vindo. Espero que ela nunca chegue. Cair de costas e voltar a ser Worm, o feto. Curioso que a origem de todos os problemas sempre é e sempre foi a linguagem. Lembra-te? Quando era só Worm, sem Mahood, só Worm, e tudo era silencioso, vermelho e morno? Foram as agulhas da linguagem que primeiro perfuraram a célula totipotente de Worm. E seila eu de tudo isso. A linguagem se dispersa, se condensa, derrete, coagula, explode e você tenta se agarrar a fatos. Mas não existem fatos em metafísicas. Nem fatos morais para alem do fracasso. Talvez não existam fatos em absoluto. Não importa. Macunaíma aparece pela janela, mostra o pau e vai embora. Do que eu estou falando mesmo? Acho que eram de borboletas. O menino gostava de observar as borboletas. As pretas e amarelas eram as suas prediletas. Mas eles dizem que o menino precisa morrer mas se eu parar de ver a beleza das borboletas eu me mato. Morto de qualquer jeito. Só que vivo e o pior; sóbrio. (mentira). Preciso escolher as avenidas. Entrar numas universidades e pá. Give some Giant steps but were are My favourite things? Nem Coltrane mais sabe. Mas como alguém poderia saber do chumbo que pesa no MEU peito? Sobre as laminas que estão chacoalhando no MEU estômago? Sobre a inquietação de alguém que não sabe parar de mexer as mãos. Os pés. A língua. Falar. Hiperatividade, grande merda, um formalismo tosco para toda essa oceânica energia psíquica, energia, energia energia, fluido descordenadamente, fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo de forma metódica, de forma anárquica, de forma erótica, e as borboletas, eu as vejo voando em lambretas roxas em direção ao sol e lá se vão ao encontro deles, todos estão la; Worm Mahood Macunaíma todos orbitam alucinadamente em um turbilhão de elétrons jazzísticos de orgasmo. Eu não estava falando disso. Acho que eu tava falando do futuro. Ou não; apenas narrando mais uma das histórias de Mahood, as sempre interminaveis historias de Mahood. Eu só lembro que eu tava triste hoje. De novo.
Eu lembro que
Choveu
Gotas de vidro e agua
Que se estilhaçavam
No prédio dos correios e toda
A agua fria fervilhando chuva triste
Choveu.
Choveu muito.
E seila, nada acaba sendo muito concreto. Como se a existência de inanimada tenha se tornado impalpável. É um saco ficar triste mas eu juro que eu sou uma pessoa feliz ou nem isso; viva, pelo menos. É apenas aquele velho estado das coisas. Absurdo. Cíclico-linear. Round and round and round and round and round. O tempo flui de forma tão ilusória como a realidade. Disseram sobre um realismo que viria embutido na maturidade. Disseram que tem uma vida pela frente, funças pra fazer...
So run rabbit run run run run run run run run run run run run run fast until one day you become um homem velho sentado com uma garrafa olhando a chuva...
Um homem velho com uma garrafa olhando a chuva.
       



                                                       1ª segunda feira de março, 2017, São Paulo

                                                 

quinta-feira, 9 de março de 2017

monstros

as vezes fico inquieta e faço perguntas. me pergunto se sou como ele, se me faltam parafusos. calculo, delimito meu comportamento.

quando fico inquieta, me movo. preciso mexer algo.

seria apenas a substância que alimenta os monstros agindo sem dispertá-los?
seria eu mesma me enganando inserindo a tal substância?
querendo não ter parafusos ordenados.
querendo correr, listando empecilhos, me perdendo no caminho?

quando fico inquieta mordo as coisas. moldo-as.

quando fico inquieta necessariamente me vejo sucumbir vejo todo meu corpo se movendo tremendo instável na beira de um buraco.

já no fundo.

lá longe, grito por ajuda.

classifico os momentos de perda de mim como intensos, ardentes.
verdadeiros?

busco ajuda
movo as mãos sob as têmporas.

quando fico inquieta me sinto suja e pequena e sozinha e peço socorro e grito.
mas as pessoas não vem mostros,

e tenho medo de sujá-las com minha teórica podridão voluntária.

quando fico inquieta fico longe, só vejo eu e o tal movimento interno
não sou alimentada pelo resto
não sei.

quando estou inquieta tento me acalmar sozinha
desenhar os tais mostros,
escrevo delimitando frenéticamente as minha inutilidades internas externalizando-as também inutilmente.

quando fico inquieta
e explodo,
continuo só.

mas passa (?)
não sei.

(fevereiro, 2017)

terça-feira, 7 de março de 2017

Inconfessavel

Passo de palavra em palavra quase como correndo. Não sei em qual direção. Palavras que retornarão eternamente e por isso devem ser pensadas da forma mais azul possível. O azul é impossível, clamo por finalmente me confessar acima de qualquer efêmero. Sou impossível. Impossível de fazer-me, de realizar-me, de encerrar-me como única consequência. Nem passado nem futuro mas no que há entre eles, no corpo. Não tenho corpo, tenho carne. Carne mutilada pelo tempo, ossos quebrados e nacos de carniça que eu nem sei como me ocorreram. Eu atravesso sozinho com muletas esse oceano de açúcar. Cachoeiras de palavras rompem o dique do silencio, sempre o silencio, perseguindo o silencio, fugindo do silencio, sendo o silencio. Mas não conheço o silencio por traz das palavras. Heis as nossas únicas certezas, linguagem e tempo. Heis as maiores mentiras: linguagem e tempo. Conclui-se que a existência é mentirosa e eu, portanto, impossível. Eu impossível. Invencível. A passadas gigantescas. A maldita vontade de potência jogando na minha cara tudo o que eu sinto contra tudo que eu acredito. Talvez essa seja a minha vivacidade. Invencível. Frágil como um navio de vidro. Sozinho. Invencível. Que cada qual seja cálido ao seu martírio, ninguém será capaz de entender toda a perdição que cabe no meu peito. Dizem que isso é inquietação. Todos queremos dominar o mundo, talvez seja algo que venha embutido no parto. Mas faz-se impossível ser. A linha não mais existe, fragmentada, nunca existiu, apenas cachoeiras de palavras, cíclicas, redondas, invertidas, torna-se impossível. E essa fragilidade fetal, essa ausência de pele e amparo, essa nudez, essa nudez solitária, essa nudez solipsista, acho que no final sempre fui eu sozinho nesse quarto nu – as paredes não conseguem respirar – A vida, parece, tornou-se inacessível. Só nos resta escorrermos por nossos cus em alguma manhã cinzenta, após o cafe. A realidade é uma moeda de cara e coroa. Meus olhos pregados choram. Acho que eles nunca pararam de chorar. E sentir que as vezes a vida parece escorrer pelos nossos dedos. Tudo o que foi está para traz. Ou em cima. Ou em baixo. Do lado. Ao lado luzes difusas machucam o olho, as palavras nunca param, é bom se acostumar com isso. Dizem que é bom se acostumar. Se acostumar com tudo o que é impossível, irracionavel, inominável, indizível, extasiante, indiferente ou enlouquecedoramente triste. Se acostume ao oceano de açucar – inquieto – não subestime o eterno retorno ou seja um instante é igual a eternidade ou seja nunca se esqueça de olhar para alguma parte bem azul do céu no momento mais triste do seu dia. Eu quem? Eu onde? Eu quando? e acima de tudo Eu como? E porque? A vida e o seu instinto nato e inato de buscar com uma sede naufraga todos os destinos e inexoráveis e o sol de cristal. Invencível. E transversal. Subterfúgios. Inventar as cores do girassol. Inventar a vida! É preciso inventar a vida! É preciso reinventar urgentemente a vida!! Mas nada diz nada sobre nada, as palavras continuam. Sempre palavras, parece que bem quando a gente se acostuma tudo começa a dar violentamente errado. Somos alheios a nossas vidas como um seringa descartável ou um vaso de carne ou uma nuvem de chuva. Mas continuo indizível. Continuo inconfessado. Continuo impossível. Talvez eu só confirme um velho estado das coisas.  Talvez eles apenas não gostem de mim. Talvez eu mesmo não goste de mim. Ou talvez goste. Caminhe em frente até que se esgotem as garrafas de eletricidade! Mas em frente onde? Me anulo de frase em frase ou com o passar do tempo. Me anulando me confirmo. A incerteza me faz eu. Eu não sou eu. Eu sou. Não sou. Sou. Não sou. Não sei de que fardo fui incumbido mas nota se que eu não o carreguei com êxito. Nunca me explicaram o que era esperado de mim mas eu decepcionei a todos, decepcionei a todos. Não consegui fazer o que queriam que eu fizesse, nem o que eu desejava fazer e nem desejar nada em nenhuma instancia. Também não consegui entender. Fiz-me impossível. Indizível. Eu não vou desistir. Eu vou continuar. Eu não posso continuar. Eu vou ser esse furacão verbal e tudo mais que couber no peito. Eu vou ser. Chorar.

Eu vou inventar a vida


                             2017, São Paulo
                                 

segunda-feira, 6 de março de 2017

A morte de um porco fosforecente

Era carnaval e as
Carcaças de porco eram
Molestadas e mutiladas na rua
Por um pouco de
Cachaça barata

Era verão
E os alucinados
Estavam banhados em um
Verniz engordurado
E fosforescente

Era frustrante
E era impossível
E era absolutamente inconfessável
O fracasso e
A amoralidade de qualquer ou quaisquer

E era triste
Pior
Era morto

Brilhe loucamente seu diamante maluco!
Aprenda a morrer...
                         






(Carnaval de 2017, São paulo)