Botas de
couro. Perguntem para os anjos
Bento Pestana Hubner
—Querida, juro que te amo
—Amor, eu também te amo, mas sofro contigo.
Tarde quente, tarde triste, a queda dos muros, a desestruturação do ser. Mas o que é amar, de verdade? Bom, talvez amar esteja no limbo de abandonar o corpo, para compor algo como uma ponte em que duas vidas se entrelaçam. Essa ponte é a conexão de dois reinos distintos que agora compartilham das mesmas pautas, interesses etc. A problemática, a questão central do amor está em, justamente, uma espécie de abandono da própria consciência para a integridade de uma relação, o que é utópico?
Chega a casa o namorado dela, que a beija profundamente. Na casa, a farra, vários loucos tomando goles grandes de cachaça, vinho, debulhando-se no hedonismo puro. Talvez, caro leitor, a problemática do ser e seu amar, não esteja no equilíbrio? No amar mais do que o querer tudo e todos? Alguma espécie de corrente que limite o indivíduo de perseguir a si mesmo nos ciclos viciosos e lascivos, ou mesmo o percorrer sozinho? Percorrer sozinho a estrada de terra sem nada ou ninguém que limite o porquê do andar e do viver, amar consiste no andar do lado, viver para e pensar, sempre, em quem “somos” e o que “queremos”?
O hedonismo briga com o amor, porque o hedonismo busca o prazer total naquele instante o amor não busca, o amor é a construção da felicidade humana, não?
Como bom casal eram eles, se beijavam, riam baixinho, compartilhavam. Goles, goles e goles. Já ouviram falar de desejo? Em filosofia, o desejo é uma tensão em direção a um fim considerado pela pessoa que deseja como uma fonte de satisfação. Imediata, diga-se de passagem. E as fantasias sexuais se exacerbam quando se trata de desejo, quando se trata de explosão, tudo o que se deve ter (segundo o indivíduo) é a satisfação dessa necessidade...
Metro Barra Funda-ônibus- apartamento do amigo do lado do CT do São Paulo e do Palmeiras.
Eu amo ela. Disso não há dúvidas e, isso, não se discute. Quando chegar vou dar-lhe o maior beijo de todos os séculos.
Eu sinto como se precisasse exprimir um líquido insano, insustentável de desejos. E foda-se o mundo, mesmo. Eu preciso tirar meu ser desse corpo e mostrar para o mundo que eu quero dar a bunda e nada, ou ninguém, pode impedir minha vontade. Não amo nada, nada, nada a não ser minha própria vontade de ser devorado por um cara, ter seu pênis me preenchendo e poder gritar, gemer, gemer muito alto pra que o mundo inteiro saiba que eu não sou um ser domável, estável, sou a reencarnação da desordem, a reencarnação de um delinquente que preza por satisfazer e satisfazer a si mesmo. Sou o próprio Hades, a morte, um delírio de sangue e gozo. Mas de gozo especificamente. Sabe aquele líquido branco que parece leite, então, é, eu quero beber leite, quero que gozem na minha boca, com força, muita força. Ultrapassar o limite e me tornar especial, não pra vocês bando de babuínos toscos, só pra mim hahaha! Pra saber que eu beijo as botas de couro dele e depois ele me explode, me deixa todo, inteirinho mesmo, comido e doído com aquele pênis grosso, cabeçudo hahahahaha... Reles mortais... Reis de seus próprios seres identificáveis hahahahaha... Imaginem, imaginem um bando de abutres sem nenhuma distinção. Quem dera, eu, fosse só menina ou só menino, como se menino e menina fossem nomenclaturas nobres, vós sois mais ambíguos que a própria ambiguidade, melhor gozar uma metamorfose multiplamente sexual que beira as leoas como beira os leões,do que um gozo preso aos leões ou só as leoas. Quem são vocês imbecis frágeis, não querem um pouco de leite, um pouco de gozo, um pouco de dor? Imagino que sim, querem sim, querem tudo, mas caros leitores e leitoras, por que masculino e feminino? Por que, oras, sentem que precisam dessa afirmativa intragável para vocês mesmo? Melhor ser uma e um ao mesmo tempo, cabem diversos pensamentos lotados, LOTADOS DE DESEJOS!