quarta-feira, 22 de março de 2017

O chuviscar

Run rabbit run dig that hole forget the rain acho que eu ja passei tempo demais olhando a chuva, dizem que a vida vem pela frente e que se você quer ser alguém nela você precisa fazer umas funças e pá. Epopéias paulistas a passadas gigantescas, labirintos de Mahood, Worm ainda chora e peida. Eu não sei o que fazer de mim. Não sei onde estava para com meus deveres. Deveres, deveres, deveres, sei, mas eu juro que se algum dia eu deixar de olhar a chuva eu vou dar um tiro na minha própria testa – a chuva é tão bonita – lembra? As gotas caem de forma sóbria e esvoaçante e brincam e explodem no pátio, gotas de chuva tristes, gotas de chuva anárquicas. Charlie Parker – Laura – as vezes eu só queria que o tempo parasse nessa musica, seila, ter tempo para admirar a chuva. Chove chuva chora chora chora chora chora. E não sei. Eu tive um dia triste, muito triste. Eles dizem que a vida tá vindo. Espero que ela nunca chegue. Cair de costas e voltar a ser Worm, o feto. Curioso que a origem de todos os problemas sempre é e sempre foi a linguagem. Lembra-te? Quando era só Worm, sem Mahood, só Worm, e tudo era silencioso, vermelho e morno? Foram as agulhas da linguagem que primeiro perfuraram a célula totipotente de Worm. E seila eu de tudo isso. A linguagem se dispersa, se condensa, derrete, coagula, explode e você tenta se agarrar a fatos. Mas não existem fatos em metafísicas. Nem fatos morais para alem do fracasso. Talvez não existam fatos em absoluto. Não importa. Macunaíma aparece pela janela, mostra o pau e vai embora. Do que eu estou falando mesmo? Acho que eram de borboletas. O menino gostava de observar as borboletas. As pretas e amarelas eram as suas prediletas. Mas eles dizem que o menino precisa morrer mas se eu parar de ver a beleza das borboletas eu me mato. Morto de qualquer jeito. Só que vivo e o pior; sóbrio. (mentira). Preciso escolher as avenidas. Entrar numas universidades e pá. Give some Giant steps but were are My favourite things? Nem Coltrane mais sabe. Mas como alguém poderia saber do chumbo que pesa no MEU peito? Sobre as laminas que estão chacoalhando no MEU estômago? Sobre a inquietação de alguém que não sabe parar de mexer as mãos. Os pés. A língua. Falar. Hiperatividade, grande merda, um formalismo tosco para toda essa oceânica energia psíquica, energia, energia energia, fluido descordenadamente, fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo fluindo de forma metódica, de forma anárquica, de forma erótica, e as borboletas, eu as vejo voando em lambretas roxas em direção ao sol e lá se vão ao encontro deles, todos estão la; Worm Mahood Macunaíma todos orbitam alucinadamente em um turbilhão de elétrons jazzísticos de orgasmo. Eu não estava falando disso. Acho que eu tava falando do futuro. Ou não; apenas narrando mais uma das histórias de Mahood, as sempre interminaveis historias de Mahood. Eu só lembro que eu tava triste hoje. De novo.
Eu lembro que
Choveu
Gotas de vidro e agua
Que se estilhaçavam
No prédio dos correios e toda
A agua fria fervilhando chuva triste
Choveu.
Choveu muito.
E seila, nada acaba sendo muito concreto. Como se a existência de inanimada tenha se tornado impalpável. É um saco ficar triste mas eu juro que eu sou uma pessoa feliz ou nem isso; viva, pelo menos. É apenas aquele velho estado das coisas. Absurdo. Cíclico-linear. Round and round and round and round and round. O tempo flui de forma tão ilusória como a realidade. Disseram sobre um realismo que viria embutido na maturidade. Disseram que tem uma vida pela frente, funças pra fazer...
So run rabbit run run run run run run run run run run run run run fast until one day you become um homem velho sentado com uma garrafa olhando a chuva...
Um homem velho com uma garrafa olhando a chuva.
       



                                                       1ª segunda feira de março, 2017, São Paulo

                                                 

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