Teodoro nascia e vivia em um sertão que lhe era próprio. As pequenas roças de milho e fumo banhadas pelo roxo e o laranja dos entardeceres eram a sua sina e ele queria ser todos os destinos e inexoráveis em sua ansiedade palpitante de seus breves dezessete anos.
Em uma tarde solta Teodoro sentia o silencio sob o peito. Estava inquieto. De sua janela via o moinho amarelo e os olhos doces de Alice navegando pelo céu ensolarado de uma paz sertaneja. Tomou meio copo de um café morno do bule em cima do fogão a lenha da cozinha e saiu para dar um passeio em sua bicicleta vermelha onde diariamente diariamente ruminava os pesos e os dias. As nuvens estavam mastigando o marasmo e as pedrinhas vermelhas da estrada de terra farfalhavam sob a roda da bicicleta enquanto Teodoro estendia seus olhos vividos e redondos pelas planícies desoladas do cerrado. Não cabia em seu peito as incertezas de ser mais um homem caminhando sobre esse chão poeirento. Algo o incomodava la dentro, um peso estranho e abstrato junto com uma sede inexplicável de viver mas para alem da melancolia estava até alegre. Sorria.
Prosseguia pedalando pelo seu sertão.
Ouvia nitidamente em seu coração a sua ultima conversa com o velho Hugo Salomão. Hugo era um velho homem que criava galinhas em sua granja e estudava filosofia nas horas vagas. Estavam ambos sentados na sala do velho tomando café com leite em xícaras azuis. Hugo sentou na sua poltrona e acendeu um cachimbo de tabaco. Desde pequeno Teodoro adquiriu o habito de varar longas tardes jogando conversa fora com o velho. Hugo Salomão deu duas baforadas fumegantes no seu cachimbo e começou a balbuciar sonolento:
" – Sua angustia é imatura. Possuis uma sede lasciva de ser a vida em todos os seus âmbitos e destinos. Quer fazer ser de verdade, quer chegar ao mar mas ainda é simplesmente muito jovem. Não leve a mal, um dia vais entender. Gosto muito de ti Teodoro, tens olhos doces e é um menino sensível. Qual a sua moral? A hipérbole da razão é saber quais deuses devemos matar e quais devemos fingir estarem vivos. Talvez sua cabeça não esteja pronta para enfrentar seu tempo mas é preciso dar um tiro no escuro: um sim, um não, uma linha reta e uma meta. Entre o pensamento e a expressão existe o tempo de uma vida.
– Tenho medo Hugo – disse Teodoro hesitante – minha única moral é o medo que eu sinto.
– Pois é a única moral para quaisquer. Acerte sem dó os ídolos com o diapasão do martelo para ouvir seu eco seco, oco e visceral. Não siga lideres. Viver é um deriva que exige apenas muitas lagrimas nos olhos e muita coragem pra suportar. Talvez a única solução o para a vida seja ou Deus ou a morte. Não busque soluções, seja absurdo. Um homem que vive de antagonismos honra a vida pela tragédia. Metafísica é apenas outro nome para as figuras em exibição. Ache uma garota com olhos doces e se case, se quiser. Tenha calma e viaje muito, nunca guarde seu coração inteiro para si. Aprenda a navegar pelo método e pela pulsão. Sofra. Diga não a fabula eterna que cega mas sim ao rosto, ao gesto e ao drama terreno que exigem uma difícil sabedoria e uma paixão sem amanha.
– Meus sonhos para alem do sertão me apertão o peito. Devo ir ou devo ficar?
– A grande questão de cada homem é decidir a morte interna do seu Deus ou do seu diabo.
– Devo ir??! – Os olhos redondos de Teodoro faiscavam de ansiedade e inocência.
– Decida por você mesmo" – O velho concluiu e deu uma baforada fumarenta em seu cachimbo.
A lembrança da conversa o angustiava. Precisava se tornar alguém mas quem e porque? Será que ele era algo para além de um poço de duvidas e um sorriso? A tarde engatinhava sonolenta. As nuvens gigantescas espalhadas pelo céu de um começo de entardecer, as nuvens pontilhadas e esticadas por espátulas e os floquinhos sólidos de nuvens de leite navegavam a esmo. A estradinha vermelha seguia infinita cortando pastos e plantações de milho e cana de açúcar. Esporádicas casinhas de tijolo onde cachorros vira latas latiam ou caipiras entediados fumavam cigarros de palha em cercas de arame farpado.
O sol irradiando pelas planícies desoladas do cerrado subitamente o lembraram dos suaves cafunés de Alice. Seu coração voou para aqueles momentos que sempre guardava dentro das caixinhas especiais das memórias bonitas;
Outra tarde ensolarada. No açude ao leste da vilazinha Teodoro e Alice nadavam pelados e despreocupados. Gostava de passar os dias a contemplar os olhos doces de Alice. Sairam da agua e olharam para as nuvens. Teodoro deitou no colo dela e começou a devanear. Alice fazia um cafuné carinhoso e acendeu um baseado. Seus seios morenos palpitavam ao sol e ela lhe deu um beijo cálido.
– "Alice, o que tem depois do céu?
– Talvez a noite.
– E depois da noite?
– Seila Téo, hehehe, como eu vou saber? Alem do mais você se faz perguntas de mais menino.
Teodoro fumou com calma o baseado. Não sentia pressa. Olhou para os olhos de Alice. A tarde estava explodindo em um céu de fogo. Alice suspirou e deu um sorriso. Apagou a bagana. Seus olhos fitavam o açude e todas as colinas em volta.
– Qual o seu sonho Téo?
– Voar até o céu
– Mas o céu é só um lugar onde nada nunca acontece
– É sublime, não sei... – devaneava Teodoro – ... Alice, você tem olhos tão doces...
– O céu é doce Téo?..."
A cena se esvaia como o tempo escorrendo pelas suas mãos. Teodoro continuava a sua meditativa pedalada pelo entardecer.
Agora o sol se punha de fato. Tudo girava em sua cabeça: As certezas, os medos e as inquietações e todos os anos doces passados naquele sertão timido e todas as colinas que o cercam e tudo que esta para alem delas, uma sede de vida, uma sede inexplicável de vida, uma inexplicável e naufraga sede de vida. E pensava em Hugo Salomão, e em Maria Alice, pensava nos pais, nos irmãos e no seu querido e único amigo Godofredo. Se fosse se tornar alguém seria apenas uma consequência. Consequência dos medos e dos sonhos que não cabiam no seu peito nos entardeceres vermelhos. Sabia que só tinha o dia e a noite como companheiros e sabia que amava a vida. A odiava também mas no final Teodoro era simplesmente incapaz de desprezar algo.
Chegou ao final da estrada e olhou para o velho e gordo sol se pondo atrás do vale depois do pasto e explodindo em vermelho, azul, rosa, roxo, laranja, lilás. E chorava, chorava tudo, chorava os pesos e os sorrisos, chorava o mundo, a saudades do futuro e o esplendor colorido da vida que se explodia naquele por do sol no cerrado.
Jurou sua existência para aqueles céus.
Levantou seus olhos vividos e redondos para a bola flamejante que mergulhava entre as montanhas. Sabia que nada sabia...
Teodoro olhou para tudo aquilo e não sabia se ele que esperava a vida ou a vida que aguardava ansiosamente por ele.
(Iria descobrir por sua própria conta)
7 de janeiro de 2017, chacara, Brasilia,
(Téo)
Nenhum comentário:
Postar um comentário