O sol nascia imaculado no horizonte.
Era longe, depois dos vaporosos oceanos de sal e dos vítreos desertos de granulada esmeralda. Em uma ilha de chumbo erguia-se uma imensa torre de mármore pálida e lisa. A torre, perfeitamente lapidada e polida por fora consistia, em seu interior, de delgados labirintos de espelhos dos mais sortidos – Coloridos, transparentes, convexos, côncavos, reais e ilusórios – e nela habitava um ser peculiar. O único e absurdo habitante dessa onírica torre atendia pelo nome de Tomás. Tomás era liso e branco como o mármore que revestia a torre por fora e delgado e metafórico como os espelhos que a preenchiam por dentro. Não possuia um pelo sequer pelo corpo e tinha olhos níveos e cinzentos.
Tomás vivia em um eterno dilemo que consistia nas terríveis ambiguidades de se viver em um labirinto de espelhos: Em primeiro lugar, ele era a torre ou a torre era ele? Depois, ele era Tomás, homem de carne e osso ou apenas mais um reflexo do símbolo que atendia por esse nome? Ou ainda, estaria ele olhando para os espelhos ou estava se olhando de dentro deles? Ele era real? Entre âmbitos e contextos os dias se transcorriam líquidos e monótonos para aquele que eternamente mergulhava na própria imagem refletida no espelho.
O homem, num lânguido e plúmbeo dia se levanta e de praxe contempla sua imagem refletida naqueles etéreos pedaços de vidro. Como um espasmo sabia que fora parar dentro daquele espelho e la de dentro sua visão era absoluta: mais e mais espelhos. Tomás se perguntava se mudava algum detalhe de seu ser a cada mergulho no seu reflexo. O que havia de essência nele após tantas mudanças? Estaria seu âmago diluído entre tantos simulacros? Continuava sua jornada diária rumo ao nada. Sentia-se levemente ansioso e um tanto quanto angustiado, mas isso ja era hábito.
Continuava seu lácteo navegar. De subito outra velha dúvida assoltou seus nervos atônitos: De frente para o espelho ele se perguntava se fitava o seu reflexo, sendo o original ele, ou ao contrário, fitava o original, sendo ele apenas reflexo. Talvez apenas dois reflexos, como poderia saber? Tomás era apenas um símbolo diluído na torre, uma imagem e uma ideia sem raiz concreta. Um sentimento estranho começava a fervilhar no seu crânio e seus dedos tamborilavam as marmóreas coxas. Seu coração batia sincopado e palpitante, seu navegar acelerava...
Tudo era ofuscante e cremoso, Tomás não era nem ideia nem imagem, era performace. Performava hesitante entre suas trêmulas simulaçoes. Tomás não era carne mas apenas simbólico reflexo de espelho, era uma abstração que morria e se dissolvia perante a própria imagem. Tentou fechar os olhos mas não adiantou, os sentidos eram apenas reflexos vazios, os pensamentos apenas reflexos vazios, as palavras apenas reflexos vazios e as imagens e a forma eram reflexo vazio. Tomás era reflexo vazio e agora a duvida se metamorfoseava em certeza e seus pobres miolos simplesmente sabiam que não eram reais. Ele sabia que não era real. Tomás não existia como homem nem como ideia nem como nada, Tomás era apenas linguagem coagulada e refletida no espelho. Tomás era apenas uma consciência solipsista, um monólogo ilusório e simbólico que hesitava pelas vielas tristes da existência.
No orgasmo masoquista de seu esquizofrênico frenesi, Tomás se agarrou ao impeto e arremessou com uma considerável enfática violência seu crânio contra a cálida lâmina de vidro e lá, naquele único instante suspenso onde o sangue jorrava e os miolos e os cacos de vidro voavam para todos os lados que Tomás foi, por um tímido átimo de segundo, real. Sim, Tomás foi por um instante real e depois morreu, apodreceu dentro de sua metafórica torre de mármore completamente sozinho e carnal e pútrido, humano.
Tudo isso longe, depois dos vaporosos oceanos de sal e dos vítreos desertos de granulada esmeralda onde agora o sol se punha...
Téo Serson, Sertão do cantagalo, MG, Julho de 2016.
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