-Olá jovem
-Olá. Eu quero um café e um pão de queijo.
obrigada
-De nada
ela toma um gole do café, adocicado demais para sua vida amarga. O pão de queijo seco demais para seus olhos afogados em lágrimas.
- Precisa de mais alguma coisa?
- Não, brigada moço.
Ela força um sorriso. Ele retribui. Mal sabe ele o que lhe custou esse sorriso.
Ela toma outro gole do café.
Relembra da noite conturbada.
As pernas esfaceladas, a mente desiludida e as mãos com a navalha.
O corpo completamente nu enquanto ela sentava no chão empoeirado. O cabelo ainda molhado escorrendo nos ombros e seios assim como o sangue que deslisava pela coxa com dificuldade.
Ela não estava preocupada com a morte nem com o mundo nem com a tristeza nem com a angustia nem com o medo nem com nada mas sim com a mancha que o sangue deixaria na toalha branca.
-São 5 reais
-que?
-5 reais. O café mais o pão de queijo.
- Ah ta.
ela tira o dinheiro da carteira tentando esquecer da noite mas as lembranças não querem passar, não com a memória viva na coxa direita pulsando a cada passo.
Ela se lembra dos passos que deu em direção a porta. Lançando seu corpo contra a superfície emadeirada. Soltando brados ensurcedores e ao mesmo tempo mudos.
-Tchau jovem
-Tchau, Tchau.
Ela procura pelo maço. Só restam cinco cigarros. "amanhã eu paro".
Pega o isqueiro [que nem seu é] e com a cigarrilha na mão acende fumo.
Ela então tenta esquecer de tudo que aconteceu.
Dos berros, dos cortes, das navalhas, dos medos, dos pensamentos e pensa consigo mesma;
Amanhã vai ser outro dia.
Nossa, profundo. Sororidade...
ResponderExcluirNossa, profundo. Sororidade...
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