(...Estendia-me murchado deitado em azuleijos encardidos. A luz ofuscante, palida e amarelada como um sorriso do Diabo a me causar dores nas temporas e delirios efemeros. Nao sei se possuo corpo mas em caso afirmativo sei que ele dói e sangra e fervilha em pustulas de negro pus. Não possuo nome nem voz, talves apenas conciencia. Nomes, vozes, um caldeirão de impetos. Não sei ao certo como vim parar aqui e nem como pretendo sair. Sou apenas um corpo anonimo sangrando em uma sala de azuleijos sujos com uma unica e aguda luz amarelada como um prego pontudo penetrando lentamente bem no meio dos meus olhos. Da dor e da voz se descompunham vozes e consequentemente angustia...
1- Sou um jardineiro, um embaixador. Acima de tudo cognição. Diariamente cultivo meu precioso jardim de simbolos. Minha sina é o metodo, minha angustia o controle e meu inferno o porque. Sou a estruturação e toda estrutura alem do provedor de todas as simbologias e todas as significaçoes. Meu dilema é o juizo sobre o jardim com tendencias patologicas ao absoluto sendo impotencia e onipotencia duas faces da mesma moeda. Sou a ponte entre a fantasia e o real também. Sou toda estrutura cognitiva e um masoquista sadico adepto de lamina do eterno porque. Sou em suma um escravo preso a vislumbrar o seu próprio conceito de angustia.
2- Sou a pulsão, a vontade, a potencia. Insaciavel, quero sempre mais, quero sempre agora. Sou uma seta que se impele em direção ao mundo e me norteio pela simples formula de evitar dor e buscar prazer. Minha sina é a soberania, meu desejo é a carne e meu inferno a frustração. Sou de verdade um fracasso, um escravo do meu paradoxo. Pelo medo do frustrar não me arrisco. Sou um impulso disfuncional. Sou um cavalo decadente, lascivo e asquerosamente egoista. Nao sou pelo medo de não ser. Nao me realizo pelo medo de não me realizar. Sou em suma apenas mais um escravo preso a vislumbrar seu próprio conceito de angustia.
3- Sou a antitese; A repressão, a censura e a culpa. Sou o anti-eu, o auto-flagelo com função adaptativa. Nao de fato me importo com a integridade do todo. Sou o chicote que se ultiliza da projeção da onipotencia absoluta para se jogar constantemente no abismo da impotencia, no caso igualmente absoluta. Sou o inquisidor inargumentavel e o castrador castrado. Como meu sucesso depende do fracasso e meu prazer depende exclusivamente da dor me considero, em suma, bem sucedido.
4- Sou a unica redenção existencial para além do suicidio: A revolta. A revolta primordial, primitiva, infantil, impetuosa. Sou o estranhamento primeiro entre o existente e a existencia, sou o grito do desejo enclausurado no real, a subversão dos contextos e das estruturas. Sou a incognita na equação do viver, o rebelar-se contra a condição. Sou a revolta metafisica e nunca poderei ser atenuado ou domado no vai-vem cotidiano do dia dia.
5- Sou o afeto. Alimento-me de abraços, carinhos e amparos. Aconchegos. Sou algo entre o amor genuino e um reflexo deturpado da lascivia. Sou envaginante, altruista e tendo a carregar universos nos meus ombros. Sou o impulso inexplicavel, uma carencia com véu de virtude. Sou fraco a certo ponto. Minha sina é cuidar e amar e ser cuidado e amado. Sou o que existe de Deus no homem. Sou o amor mas tive meus tentaculos amputados e carbonizados por um espectro feminino com olhos de fumaça e labios de mercurio. Dessa carcaça de tentaculos me expresso através de minusculos fiapos musculares que tentam se agarrar a algo mas talves eu tenha morrido de vez. "Amou" está escrito na minha lapide sangrenta. É, talves morri para sempre, sou algo entre a vida e a morte, um limbo. Estou paralisado mas entre espasmos me expresso de forma timida e cadavérica. Em suma, um fantasma de aspecto cálido.
6- A deriva me é intrigante. Só curiosidade: matar ou morrer, viver é perigoso e sem duvidas não podem haver certezas. Minha sina é o movimento, o meu orgasmo é o frenesi. Minha angustia é a estrutura e minha castração o cotidiano. Enveredar ou não, eis a questão. Sinto me pesaroso de não poder devorar com voracidade o mundo e todas as suas planices, mares e colinas. Ou só ir, para não mais voltar. Subverter o esqueleto e a raiz, sendo por intermédio liquido, espontaneo e muscular. Sou a deriva e o âmago bagual do ser, apenas freneticidade.
7- Sou o âmago, o transcendente e o supra sumo criativo no homem. Sou completamente louco, lisergicamente onirico alem de colorido e acima de tudo oceanico. Sou amorfo, fuido e solipsista. Sou arte, sonho e transcendencia abstrata e sinestésica. Sou o mais profundo nucleo na alma humana, o onipotente primario. Meu unico inimigo e medo é o real. Mas sou o que resta para o homem depois de matar deus. Isso porque apenas no sublime ato de dar luz a uma criação o homem se torna deus por um intante e realiza o seu reprimido complexo de édipo metafisico. Sou imaginação, o inconciente e todas as cores de um olho inocente e malicioso.
... Acordava do delirio na mesma sala diabólica: azulejos, sangue, sujeira e pus. A luz amarelada me causava espasmos doloridos e ganidos bestiais. Não estava mais sozinho na sala: dezenas de carcaças corpseas e sangrentas se contorciam e uivavam e murchavam em uma existencia carnal, fétida e nauseabunda. Minhas temporas doiam e eu sangrava e entendia, sim eu finalmente entendia e gargalhava pus amarelado em um acorde esquizofrenico. Eu simplesmente entendia...)
Sim Téo, possuis muitos vermes dentro de você
6 de setembro de 2016, Sao paulo
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