quarta-feira, 15 de junho de 2016

Verborragia

 02/06,
 O tempo se transmuta, mas o espaço é só espaço. Espaço-tempo concreto ou psicológico, realidade associativa ou imaculada, tanto faz. O ser e o não ser em um mesmo objeto carnal e transmutável; O eu. Eu me transmuto, transbordo em um pedaço de carne sádico e pulsante jorrando sêmen e sangue; Tentacular eu englobo tudo em matar e foder, suicídio e masturbação numa sinfonia cacofonica, individual e cinza. Ou não, me transmuto em uma esfera ideal, algo como um espectro meditativo e cinzento que escorre pelas calhas chovidas de casas, becos e vielas pela cidade. "Everybody knows that is so hard to dig and get to the root". A raiz. Cavar até a raiz e encontrar apenas um espelho opaco e leitoso no lugar de um âmago. Desisto de cavar e procurar a raiz, não me encontro em nenhum lugar. Talvez seja de tanto me transmutar entre carne, espírito e outros mil amorfos eus e não eus. Sou por demasiado sempre muito ou pouco para pertencer a algo. Não pertenço, sou. Sou sem pertencer. Pertenço a mim e orbito apenas minha carne e meu espectro. Fecho-me em mim mesmo e uma vez isolado me embebedo no silêncio pacífico de minha solidão. Não há paz. Nem dentro, nem fora. O déficit jaz na rarefeita consciência e no cimento que agora fraqueja entre tantos instintos, impulsos e formulações simbólicas. Imagens, visões: Algo como John Coltrane crucificado sangrando um coquetel de lágrimas e morfina. Meus dedos cheiram a baganas chuvosas. Minhas entranhas se contraem em ânsia ao fitar legiões de espasmáticos seres a jorrar petróleo e chumbo pelos olhos pálidos. Um grande olho opaco injetado e febril – Vítreo ele eternamente me fita e eu congelo da espinha dorsal ao crânio ao pênis. Silhuetas libidinosas e aversão às realidades. Um estrangeiro em minha própria narrativa. Sou estranho a mim e ao mundo. Um estrangeiro é, por definição, aquele que está separado de seu contexto lar. De onde ou do que fui eu separado? Talvez, sejamos todos estrangeiros na esfera do ser. Quiça essa estranha sensação que como um todo sentimos seja proveniente da condição de separados da esfera do não-ser. Privados para sempre da não-existência e condenados ao árido oficio de ser. Se o caso for esse é apenas uma questão de tempo, uma vez que a vida mergulhe eternamente em direção à morte. Mas depender do tempo é por demasiado problemático, visto que esse na essência se transmuta de forma dinâmica e constante – Muito embora dizem que podemos nós também nos transmutarmos junto com ele e metamorfosear a substância do eu ao acaso. Transmutando-me vejo frente a frente com meus abismos e temo fita-los. Temo que ao olhar no fundo dele ele olhe fundo em mim e me transforme nele ao notar o âmago volátil de minha existência sem essência. Sei muito bem o que é se apaixonar pelo eu-louco maníaco e febril no espelho e sei bem o que é apodrecer e morrer passivo de aversão ao meu próprio e idiossincrático ser. Material, objetiva e concretamente meu problema é que a erva acabou. Em termos profundos eu já nem sei qual é mais o problema a essa altura do campeonato e esse, talvez, seja o maior e único problema.

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