quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Lascas de opala atravessando glicerina

            Os manequins de mármore fitavam a chuva de agulhas no céu branco e pastoso daquele aeroporto distante. O garoto com olhos de ressaca passeia leve entre os manequins e as agulhas e sangra a sua medula psíquica e cai no chão como um invólucro de osso murchos. Em seus olhos as chamas escorriam em riachos gélidos.
           (Imagens caem como opalas no céu de glicerina)
           A inquietude solipsista impele o sujeito ao longo da experiência... a garota de parafina deitada sobre a grande cama de ferro... trens passam zunindo através de planícies de eletricidade... um rio rançoso de esperma onde nadam serpentes lesmolisas... arvores coloridas ateadas a fumaça... o sereno inconsciente – bolsão de intensidade ectoplasmatica – do lascivo frenético... céus preguiçosos deitados em nuvens sólidas como plástico... a lagrima do sol gotejando sobre uma cordilheira de gotas de sal... o tempo voa como uma maquina de escrever quebrada...
             (Cacos de imagem desabam lentos, como lascas de opala atravessando glicerina)
              Uma orgia juvenil de inocência, todos se fodem e se chupam e assopram fumaça de cachimbos de haxixe em suas respectivas genitais rosadas.
              Na praia esfarelada e branca só havia um velho esquelético com seu sobretudo negro e uma jovem garota nua. Ventava. Desolação. O velho junkie encapuzado oferece as pílulas de realidade e uma seringa cheia de morfina para a menina nua com olhos de oceano. "Pegue, isso não lhe custará nada além de tempo" "Tempo?.." "Sim, mas não é nada de mais, apenas uns cinco minutinhos agora, uma hora depois, cinco dias ou dois anos quem sabe, não precisa entender agora"
               "Ta.."
               (O sangue da infância brota no conta gotas como uma flor chinesa flutuando em um oceano de morfina)
                Extensas estruturas metálicas bebem o céu em goles... navalhas cronológicas dilaceram  símbolos... rochedos relampejam de agitação e angustia... uma pedra em um rio profundo e pardacento onde mora o âmago do medo... nuvens de ópio conduzem o imaginário através das navalhas... uma boceta metafísica gigante com dentes que suga as estrelas do céu de gelo... caralho duros e palpitantes gozando a pulsão de vida no interior de bocetas úmidas e adocicadas... um luar de olhos sobre a cidade... a teia fétida do espectro enrabando o seu reflexo no espelho... o mundo de imagens se esfumaça e segue como uma nuvem abstrata em direção a eternidade...
                 É preciso ser iconoclasta para com seus próprios deuses mutilados,
                 É preciso ser amoral.
                 Nada é preciso pois tudo é, heis os fatos.
                 (Viver é perigoso)
                 Ele caminha pela rua em um dia chuvoso. O céu estava branco e pastoso e choviam agulhas que atravessavam os medos nas nuvens de glicerina. Ele se encontra com o velho encapuzado e tenta em vão jogar as suas cores para o vazio. O velho o encara no fundo da medula como uma estatua de parafina e em seus olhos um violento rio gélido e voluptuoso escorre de suas pupilas afiadas como agulhas.
                 O minerador de ilusões contempla todas as suas rochas coloridas. Narrativas se estendem como figuras em exibição. Sonhos evaporam da mina melancólica. O menino contempla o jovem homem nu a caminhar por certezas invisíveis e translúcidas e começa a chorar. O menino chora e o tempo voa como lascas de opala atravessando glicerina. O jovem homem cai na lagoa de sangue com o céu de espelhos. O minerador de ilusões ascende um baseado.
                  Depois de transarem cada gota de suas ansiedades os jovens nus de corpo róseo se jogam no fogo ardente de suas pulsões e suas carnes se dilaceram na frenética chama ardente da volúpia.
                  Uma donzela de vidro se deita no céu.
                  Lagoas de óleo incendeiam céus de gasolina.
             
                 (Verdadeiras visões e verdadeiras prisões)
                 Alegorias não passam de alface
                 Não escondam a loucura.

         



                                                                               (Téo), SP

   
             
           

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